Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

Alemão - Parte I

 

 Se você tem alguma religião, e em consequência acredita em paraíso, vida eterna, essas coisas, diga lá: pode haver céu e eternidade felizes sem cães, gatos, cavalos e outros animais? Pode haver um paraíso sem nascer e pôr do sol, e, em os tendo, podem eles acontecer sem o canto dos pássaros? Pode um paraíso ser alegre apenas com o dedilhar de anjos em suas pequenas harpas? Mas que chatice! Então me responda: por que não se reza pelos cães? Por que não se admite que, se for para existir esta coisa chamada “alma”, forçoso é admitir que todo ser vivo terá direito a ela, das baleias ao musgo, passando, é claro, pelo cães. Mas não se reza pelos animais, não, pelo menos, na vida adulta. As crianças, tenho certeza, serão muito mais capazes de rezar por seus animais do que por muitos parentes que se vão.

 

Conheci o Alemão faz quatro anos. Na época ele era um cão forte, orgulhoso, poderoso. Viva em torno da esquina das ruas Duque de Caxias e Cipriano Ferreira, depois de ter passado uma temporada na Riachuelo. O motivo da mudança era evidente: se apaixonou por Tanise, e transferiu-se para a frente de sua casa. Da amada e de sua mãe, Maria Helena, ganhava água, comida e pouso: à noite, tinha acesso à garagem, onde dormia protegido das intempéries e da “maldade humana”. Só não podia frequentar o resto da casa porque essa era território de uma poodle ciumenta, que não admitia visita de estranhos.

 

 O tempo em que viveu ali (e onde foram batidas as duas fotos que acompanham este texto), Alemão manteve a paixão, mas nunca foi um exemplo de fidelidade. Era um rabo de saia convicto. Fugia de homens estranhos, mas saia atrás de qualquer mulher que lhe oferecesse a promessa de um sorriso. Foi assim com Ânia, a minha. Voltando da academia, um dia cruzou com Alemão, falou com ele e pronto: ficaram amigos. Chegando em casa, ela me contou do rival e, de pronto, fui conhecê-lo. Latiu para mim, me evitou, não me deixou chegar perto. Mas sou paciente.

 As próximas semanas foram dedicadas a um lento processo de aproximação. Ração seca? Não gostava. Biscoito para cães? Refugava. Ração úmida. Ah! Esta ele cheirava, sentava junto, e até comia, mas nunca de minha mão. Precisava deixá-la no canto do pratinho da Tanise, ir embora e supor, quando voltava depois de um tempo, que o sumiço dela significava que ele havia comido. Certeza nunca tive. Naquela época, saí pela zona tentando descobrir sua origem. Vira-latas de rua não era, não podia ser. Então surgiram várias histórias.

 

Algumas: seu dono era um velhinho que havia morrido. Pouco provável, dado à sua desconfiança dos homens. Então sua dona era uma velhinha que havia morrido. Mas também não era provável, pois era um cão muito acostumado a andar na rua, e nesse caso, seria conhecido. E ele havia aparecido de um dia para o outro na Riachuelo. Teria fugido de casa? O mesmo problema, fosse assim seria conhecido de alguém na região, e os cartazes distribuídos não deram resultado. Então, um menino que um dia assistia da esquina minhas peripécias para atrair Alemão com guloseimas caninas me disse:

 

- Conheço este cachorro.

 

 Ora viva!

 

Ele me contou então que, há algum tempo, um caminhonetão desses grandes havia parado na frente do Colégio das Dores, pouco antes do horário de saída, jogado fora o cachorro e ido embora. Disse que vários colegas haviam assistido à cena e que o cachorro havia corrido atrás do carro, mas depois voltado para a frente do colégio. Fui verificar e mais dois alunos, um deles mais velho, já do segundo grau me confirmaram o havido. Nenhum dos guardas ou motoristas de transporte escolar tinha visto coisa alguma. Mas na falta de provas de qualquer das versões, esta ficou sendo a minha preferida. É a mais parecida com o comportamento humano dominante.

 

Só consegui conquistar a plena amizade do Alemão lá por outubro de 2009. Foi num sábado quente. Cheguei em casa e fui ver se estava em seu local de sempre. Estava. Me aproximei conversando, ele veio me cumprimentar, mas não ficou perto. Fui para casa. Logo depois desabou um daqueles temporais de chacoalhar a cidade e lembrei dele, naquele temporal, pois a casa de Tanise havia me parecido vazia. Peguei um pacote de comida e fui para lá. Debaixo da maior chuva, sentei no cordão da calçada e o chamei. Ele veio. Ofereci um biscoto. Ele cheirou mas não comeu. Dei uma mordida e ofereci de novo. Ele mordeu. E ali ficamos até a chuva passar, comendo biscoitos para cães, para espanto dos motoristas que passavam. Ficamos amigos.

 

Convém esclarecer que eu não era o único. Àquela altura todo mundo na zona já conhecia o Alemão, e lhe dava coisas. Às mulheres, ele agradecia festivamente, aos homens, com circunspecção. Além de mim, outro homem de quem gostava era do pai da Tanise, ao qual seguia em suas caminhadas pelo centro até ser mandado de volta. Então voltava para casa, estivesse onde estivesse. Por esta época, descobriu-se que além das paixões fugazes tinha um outro amor estabelecido. Iara morava na General Alto. Ele também ficava na frente de sua casa, onde recebia água e comida. Ele também era apaixonado por ela. E, notável, durante muito tempo nenhuma das duas – Iara e Tanise – desconfiou da existência da outra, apesar das duas casas ficarem a menos de três quadras uma da outra. Mas Iara tinha em casa uma cachorrinha ciumenta, e ele não podia entrar. Mas a esta altura nem parecia querer. Adorava a liberdade e dava grandes passeios.

 

Então, no início de janeiro de 2010, logo depois do ano novo, Alemão ficou doente, muito doente. Ficou prostrado, não comia, orelhas e cauda caídas, nariz quente, o quadro da dor. A nós, leigos, parecia intoxicação, pois muita gente havia dado a ele restos da ceia de ano novo, e algumas dessas coisas haviam ficado ao sol por muito tempo. Tanise o deixou preso na garagem e chamou uma veterinária. Ela deu-lhe uma injeção, mas recomendou internação. E disse que, provavelmente, seria um problema renal. No dia seguinte, o pusemos no carro, carregado no colo de Tenise, para entrar, e o levamos para uma clínica. Ficou lá de 4 a 11 de janeiro, e o veterinário (do qual não cito o nome porque a clínica fechou ou se mudou e perdi contato) confirmou o diagnóstico de problema renal. E avisou:

 

- É crônico, não tem cura. Vão ocorrer outras crises e ele irá piorando. Teria que tomar medicação permanente e controlar a alimentação para estabilizar o quadro. Na rua isso é impossível. E mesmo em casa é difícil. Talvez ele já tenha tido uma crise dessas, e talvez por isso seu dono original o tenha posto fora.

 

O tempo todo em que ficou internado, visitei Alemão todos os dias, menos no domingo, último dia, pois neste visitas não eram permitidas. Brincamos, levei presentes, “conversamos”. Na segunda, quando fui buscá-lo tinha tomado banho e ele estava em uma geringonça de secar cães que mais parecia uma máquina do tempo. Lá dentro, após ter sido lavado e esfregado, e submetido a vento e barulho, estava... assustado? Nada. Imperial e imperturbável como sempre. Apenas me olhou e sussurrou com os olhos:

 

- Me tira daqui.

 

Naquele momento, tinha mais pompa e circunstância do que qualquer Akita com linha de ascendência registrada em uma biblioteca de pedigrees. E revelava, na expressão, toda a imensidão de seu bom caráter, que fazia com que nunca tivesse avançado, nem (muito menos) ameaçado ou mordido alguém, em seus tempos de rua.

 

Paguei a conta, ganhei uma guia e uma coleira usadas, mas muito bonitas para retirá-lo de lá (tinha ido no colo, lembram?) e o levei até o carro. E então, problemas: ele não gostava de andar de carro. Detestava. E eu tinha ido sozinho. Como colocá-lo para dentro, agora novamente forte e vigoroso? Puxa daqui, puxa dali, ele acabou por colocar as duas patas da frente e tirar a coleira para fora. Saiu correndo pela rua (Barão do Amazonas, quase esquina Bento Gonçalves) em direção à Ipiranga. Fui atrás. Consegui pegá-lo três quadras depois. O segurei pelo pescoço, uma mão de cada lado, e fiquei cara a cara com ele, jogado no chão. Impasse. Não tinha como recolocar a coleira, se soltasse uma das mãos ele fugiria. Pedi ajuda (esta na frente de uma garagem de ônibus, cheia de motoristas na frente). Todo mundo olhou o tamanho do cachorro e ninguém veio. E assim ficamos.

 

Devem ter sido segundos, me pareceram horas. Então ele me olhou nos olhos, virou o focinho para o lado e prendeu meu braço direito com os dentes, delicadamente. Não mordeu. Soltou e me olhou nos olhos (pertinho, uns 20 cm. de distância, literalmente olhos nos olhos). Repetiu o processo exatas quatro vezes. Nunca mordeu, nem sequer arranhou. Então deu um safanão mais forte, virou o focinho um pouco mais, pegou minha mão na parte carnuda e mordeu.

 

Mordeu com cuidado, se fosse com raiva, naquele lugar, teria arrancado um baita pedaço. Mas, apesar de mal ter furado, mão é mão, tive um baita sangramento. Soltei. Ele fugiu para a Ipiranga. Na esquina, parou e me olhou. Depois, foi embora. Voltei ao veterinário, que fez um primeiro curativo, e fui para o pronto socorro levar pontos, fazer a anti-tetânica e ser encaminhado ao posto de saúde para fazer a antirábica. Quando cheguei em casa, duas horas depois (no auge do pique de trânsito), ele já estava lá. Havia percorrido quase dez quilômetros do pior trânsito da cidade e estava lá. Quando me viu, veio, cabeça baixa, lamber minha mão enfaixada. Nunca mais lambeu a outra, sempre a que havia mordido. Viramos irmãos de sangue. Pelo menos do meu sangue.

 

 

publicado por Ney Gastal às 20:03

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Alemão - Parte II

 

 

Por pouco tempo tudo voltou à antiga rotina. O que mudou as coisas foi uma dupla de vira-latas que, sabe-se lá como, cruzou pela vida do Alemão. Um macho e uma fêmea, cada um mais feio que o outro, mas “bons amigos de fé, irmãos, camaradas”. Vinham todo o dia, de manhã, e esperavam que a porta da garagem fosse aberta e ele saísse para a rua. Com eles foi que Alemão aprendeu uma das maiores especialidades do clã dos vira-latas: correr, latindo, atrás dos pneus dos carros. Passou a dedicar-se a isso com extremo afinco e grande habilidade. As pessoas da zona, que gostavam dele, não gostaram tanto dos novos amigos, “vira-latas demais, e feios” para a maioria. E tanto fizeram que um dia eles sumiram. Alemão deprimiu. Nunca mais correu atrás de carros, mas deu para sumir por dias. Muitas vezes sai a procurar por ele, seguindo indicações de pessoas que garantiam tê-lo visto nos mais variados locais.

 

Uma ou duas vezes (Redenção e IAPI) consegui achá-lo. Interessante. Bastava então fazer-lhe um cafuné depois dizer: - Pra casa, que ele voltava; para a frente da casa da Tanise, é claro. Outras vezes, achei apenas seu rastro. Por onde andasse, fazia amigos, então bastava chegar ao lugar certo e perguntar pelo cachorro legal que estaria andando por ali e logo surgia alguém com a descrição exata dele. Alguns desses lugares: na frente do Hospital Getúlio Vargas (na Avenida Independência), onde frequentou a banca de revistas; no cruzamento da Free-Way com a estrada que vai para Cachoeirinha (ganhou pouso num barracão de venda de abacaxi e lenha); em Alvorada (comeu cachorro quente na avenida central) e em Ipanema (parece que andou visitando o Bat-Bat, mas não bebia). No entanto, sempre voltava.

 

Em setembro de 2010 morou no Acampamento Farroupilha, no Parque Maurício Sirotsky. Comeu carne e sal como nunca deveria ter comido. Ficou doente outra vez. Foi tratado em casa, dessa vez, e antes de ficar completamente curado, sumiu. Sumiu. Fui reencontrá-lo no canteiro de obras que havia se instalado no mesmo parque. Devia estar esperando que os farroupilhas voltassem para se empanturrar de carne outra vez. Consegui falar com ele, mas quando o mandei pra casa, ele deu as costas e rumou para o outro lado. O rabo já não estava tão empinado.

 

Morou uns tempos na Vila Chocolatão, onde ganhou o nome de “Garanhão” porque estava sempre dando em cima das cadelas. Dizem que foi sempre bem tratado, mas não deve ter gostado das instalações, pois se mudou para um espaço da Escola Técnica Parobé, em frente. Lá enfrentou dois problemas. Viu a vila ser removida, e seus amigos e namoradas dali irem embora, e enfrentou a má vontade de duas ou três professoras, que achavam que colégio não é lugar para cães.

 

Foi ali, também (onde cheguei a visitá-lo algumas vezes, e de onde se recusava a sair) que foi descoberto por Bernardete, funcionária do Centro Administrativo do Estado, que passou a alimentá-lo e que, quando a situação com as professoras tornou-se insustentável, junto com uma amiga conseguiu convencê-lo a sair e o levou para a Pet e Clínica “Cantinho dos Travessos”, na Demétrio Ribeiro, que o abrigou, apesar de sua proprietária, Letícia, ter percebido desde o primeiro momento que ele estava em um estágio terminal de  insuficiência renal.

 

Na dura vida do Alemão, esse foi seu melhor momento. Até então, todos que haviam dele se aproximado, e mesmo ajudado, haviam dado muito, menos um abrigo seguro. Inclusive eu, todos tínhamos motivos para não levá-lo para casa, um outro cão, pouco espaço, pouca grana ou, no meu caso, cinco gatos. Na clínica de Letícia ele conviveu bem com outro cães, com gatos, teve seu sustento (alimentação especial e medicamentos) bancado por um crescente número de amigos e jamais reclamou do espaço. Ganhou um porto seguro, uma casa, e sentiu-se assim, em casa. Apenas seus rins jamais melhoraram.

 

Neste último sábado, dia 19 de agosto de 2012, depois de dois dias no soro, sem comer, cheio de feridas na boca, botando sangue para fora por tudo, Alemão foi posto para dormir, este eufemismo que a mim parece desprovido de todo sentido para a cruel realidade da verdadeira informação: foi sacrificado.

 

Ficamos – Ânia e eu – com ele quase até o fim. Claro, ele preferiu a companhia da Ânia, mulherengo como sempre, mas lá pelas tantas veio para o meu lado, deitou a cabeça no meu colo e conversamos um pouco. Não que eu tivesse o que lhe dizer. Eu queria poder sequestrá-lo e levá-lo para um lugar onde um milagre acontecesse, ele ficasse curado e a gente pudesse ficar junto. Uma última vez ele lambeu minha mão, a direita, é claro. Não a lavei até o dia seguinte.

 

Então ele foi levado e se foi.

 

Gostaria de ter ficado junto até o fim, mas Dona Celina, mãe de Letícia, que com ela o cuidou neste último ano e meio, o pegou e foi. Tenho certeza que ele morreu mais tranquilo nos braços de uma mulher. Saí da clínica à francesa.

 

Não tenho mais um amigo. Posso rodar pela cidade o quanto quiser, procurar por todos os cantos, nunca encontrarei Alemão por aí. Se pudesse, mandaria rezar uma missa por ele na Igreja das Dores, não que eu seja católico, mas porque seu velho pátio, hoje transformado em estacionamento, foi um dos lugares que Alemão frequentou. De repente, até pela nave da igreja ele andou. Mas não se reza por cães. E, apesar dos padres dizerem que eles, como todos os animais, não têm alma, a verdade é que eles não morrem, mas deixam sua memória (outro nome para “alma”) para sempre viva entre todos que conviveram com eles.

 

E agora, vou brincar com o Alemão.

 

Pessoas conhecidas (há tantas outras, que não conheço) que fizeram parte da vida e ajudaram o Alemão neste curto tempo que esteve entre nós: Tanise; Iara; Ânia; Maria Helena; Bernardete; Carlos (que o levava a passear nestes últimos tempos), Enara (aplicava-lhe reiki); Simone (fazia imãterapia); Dona Vera; Mariluce; Aita; Verena e, claro, por último, mas as que mais fizeram para tornar melhor e mais digna a vida do Alemão, Letícia e Dona Celina, da Pet-Clínica Recanto dos Travessos. Onde estiver, com ou sem alma, de lá ele agradece por tudo.





publicado por Ney Gastal às 19:44

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Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Cadê a galinha? - Parte II

 "Ximbica" é empresário de sucesso em Porto Alegre, nem velho nem moço, nem de direita nem de esquerda, nem agitador nem acomodado. Um livre pensador. Claro que seu nome não é este, mas como, na posição que tem, poderia assinar certas coisas? Então virou "Ximbica", sabe lá Deus por que deste pseudônimo, para escrever aqui. 

 

Quando não se consegue achar a culpabilidade escrachada – caso do ladrão de galinhas – a alternativa é seguir o exemplo americano. Lá, depois de investigarem minuciosamente durante o tempo que for necessário, constroem-se inquéritos recheados de provas incontestáveis antes de apresentarem a denuncia ao juiz. Ou seja, desenham meticulosamente a galinha de um jeito tal que não possa ser confundida sob hipótese nenhuma. Tem penas, asas, bico, pés e até cheiro de galinha. Configurado o crime, mandam prender sem chances de hábeas, a não ser por verdadeiras fortunas calculadas conforme o patrimônio do réu. 

 

No caso do Dantas, por exemplo, a fiança seria alguma coisa na ordem de um bilhão de reais. Afinal é nessa esfera que sua fortuna e negócios anda, ou não? Por esse método o presidente do STF americano não precisa esgrimir sabedoria jurídica para deixar de prender um réu com culpa ainda não definitivamente formada. Ao prender o ladrão a charada já esta esclarecida. Se dúvidas restarem, são de somenos. Aqui, ao que parece, querem mais é fazer espetáculos pirotécnicos mesmo. Proclamar declarações do tipo; “hoje, nesse país, nenhum figurão esta a salvo”, “acabou-se a impunidade independentemente de classes sociais” ou “quem não quer ser preso e algemado, que ande na linha”.
 
Ora bolas.
 
Sabemos que os presos estarão livres e soltos que nem passarinhos antes mesmo que se pisque duas vezes. É muita hipocrisia prender sem legislação adequada. Onde se quer chegar? Se for para apressar reformas na lei e fazer com que a vergonha bata a porta de mais alguns de nossos ilustres falcatruas, tudo bem. Os meios podem acabar justificando os fins. Mas antes temos que combinar isso com os políticos, para que façam as modificações necessárias. Essa coisa da Policia Federal poder tudo é um magnífico exemplo. Mas e quando virarem o fio? Quando começarem, por conta dessa credibilidade toda, a cometer mais excessos e desmandos? Quando se investirem como guardiões do bem e do mal, onde vão parar nossas instituições?
 
Não seria a primeira vez que a historia nos daria esse tipo de exemplo. Câmeras da Globo acompanhando flagrantes na madrugada não é exatamente um procedimento ético. Pode até ser jornalisticamente defensável, mas pelo lado da policia falta muito para se justificar. Fica algo tipo assim, puna-se na largada mostrando imagens das prisões e ridicularizando os criminosos porque depois não haverá mesmo pena a cumprir. Julgamento de rito sumaríssimo e mídia altíssima. Formula perfeita para um país de leis imperfeitas.
 
Volto ao tema inicial. Construam a culpa de forma tão meticulosa quanto os rigorosos ritos processuais americanos e não deixaremos espaço para que a desfaçam. Como resultado, chegaremos à galinha incontestável, daquelas que faz co-co-ri-có e põe ovo.
publicado por Ney Gastal às 17:53

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Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Cadê a galinha?

A indignação nacional com o prende e solta dos figurões do mundo financeiro envolvidos em mega operações de fraude ao erário publico e outros crimes como lavagem de dinheiro precisaria ser vista por um ângulo mais simplista.   Não sou advogado muito menos magistrado, sou apenas um cidadão consciente de meus deveres e obrigações e cumpridor da lei e da ordem, dentr o do possível.  Como tal não me é dado o direito de desconhecer a lei. Nem a mim nem a ninguém. Mas daí a entender a complexidade dos pressupostos delitos  cometidos  por essa turma do Daniel Dantas e companhia vai uma distancia e tanto. Se a própria Policia Federal levou quatro anos investigando, tendo nos seus quadros advogados e técnicos tributa ristas e contábeis especializados, como querem que a gente entenda esse tipo de crime da noite para o dia.           

 
A complexidade das operações financeiras desenvolvidas pelos possíveis meliantes é de tal ordem que escapa ao nosso saber. O emaranhado de legislação e regras que deveria ordenar nosso sistema financeiro é quase incompressível até para os especialistas. Ou seja, navegar por essas águas é somente para quem conhece e muito. As inteligências do Daniel e do Nahas são por muitos conhecidas e elogiadas. Trata-se de mentes brilhantes a serviço de suas próprias causas. Constituíram dezenas de empresas de sucesso e criaram entre elas e os setores públicos toda a sorte de relacionamentos comerciais. Operações de bolsa de valores sofisticadíssimas aqui e também lá fora. Fundos de administração de carteiras gerando bilhões de reais no cassino da bolsa, e mais um sem número de negócios de intermediação e representação, que também nos escapam quanto à complexidade e execução, fazendo nascer outras dezenas de zeros após a virgula.  Lucros fabulosos, legais ou não. Difícil, muito difícil a caracterização e tipificação os delitos.
 
Muitas brechas na lei e na falta dela, inclusive para caracterizar essas supostas artimanhas. Fica fácil a concessão do hábeas por parte dos ministros do STF. Alias, difícil é o convencimento dos crimes, e dos riscos do que podem os supostos envolvidos estando em liberdade representar. Quanto a possível evasão deles do país, é parte do jogo. Vide o Cacciola, de volta sob os generosos holofotes da mídia.
 
Quando um ladrão de galinhas é pego a coisa é bem mais simples. Tem o ladrão de um lado e a galinha do outro. A tipificação é flagrante. Ponto. Transponham isso para os “crimes” do Daniel Dantas e vejam se conseguem chegar perto de alguma coisa parecida.
 
Os sucessivos hábeas corpus obtidos e mais os que ainda virão decorrem exatamente dessa dificuldade. O inquérito policial já soma milhares de paginas que precisam ser analisadas pelo judiciário em suas várias instâncias. É obvio que haverá mais discordâncias sobre a culpabilidade em vários dos delitos apontados. A tecnicidade e apuro dos peritos serão postos a toda a prova durante esse julgamento. Ah, e a prescrição? Vem a galope, cinco aninhos para esse emaranhado é um vapt-vupt.
 
Aparentemente as coisas estão bem encaminhadas pela Policia Federal. Acho, inclusive, que os acusados de fato são culpados da maioria dos crimes que lhes são imputados.
 
Mas e a galinha, cadê?

 

(Ximbica)

 

publicado por Ney Gastal às 03:20

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Ortografia e atraso

      Esta reforma ortográfica que vai nos ser imposta ao final do ano atende principalmente aos interesses das editoras em língua portuguesa, visando aumentar o mercado livreiro. Assim como está hoje em dia, muitos livros precisam passar por um ridículo processo de tradução do Português para o "brasileiro", ou vice-versa, o que encarece a produção do livro. Ou seja, estamos sofrendo mais uma conseqüência da chamada "globalização". Isto não acontece apenas no Português, mas em quase todos os idiomas falados em antigos impérios coloniais onde a "matriz" não é forte o bastante para impor sua própria norma culta. Mas acontece com freqüência em nossa língua, porque a cultura portuguesa é cartorial e gosta que se enrosca de uma boa confusão.
 
    Só por isso não fazem a reforma definitiva de uma vez, e vão deixando penduricalhos para no futuro torrarem o saco de uma outra geração com novos "ajustes".
 
    Isto, no entanto, não significa que a língua não deva ter regras, que não exista uma língua "certa" e - por oposição - outra "errada".

 
    Muita gente cita o famigerado exemplo da "coisa" escrita pelos jovens na internet, como um modelo do Português do futuro. Não é.  Aquilo é incultura e preguiça. E, ao contrário do que defendem, NÃO É compreensível para todos. Além disso, ainda é uma língua de minoria. Há centenas de outros "projetos de língua do futuro" rolando por aí nos rincões do mundo de colonização portuguesa. Se a cada um for dada a liberdade de seguir para onde quiser, os países se despedaçam.
 
    A língua é a maior fonte de coesão de uma cultura, mas isto nem é o mais importante nesta questão. Mais importante é a necessidade das pessoas aprenderem a ESCREVER corretamente em seu idioma, mesmo resguardando o uso de dialetos e sotaques. Aprender a língua corretamente é um esforço preliminar e mínimo para "aprender a aprender" a pensar. Quem acha difícil aprender a própria língua - e nela escrever corretamente - terá muita dificuldade em aprender outras coisas. É como matemática de colégio. A fórmula de Báskara, por exemplo, sobre a qual gerações após gerações perguntam "pra que aprender isto?". Para aprender a raciocinar.
 
    Para aprender a pensar.  É admitido por especialistas em todo mundo que o altíssimo desenvolvimento dos países orientais, que, isolados, saíram da Idade Média faz pouco mais de cem anos e hoje estão tomando conta do mundo, se deve ao fato de suas crianças terem uma educação firmemente fundada em cinco bases complexas, nesta ordem:
 
    1-) Escrever usando ideogramas complexos, extremamente numerosos e de desenho elaborado.
    2-) Aprender matemática passando pelo uso do ábaco.
    3-) Aprender música e a tocar pelo menos um instrumento (na China comunista, hoje TODAS as escolas têm PELO MENOS um piano).
    4-) Exercícios físicos regulares e disciplinados.
    5-) Aprender a jogar xadrez.
 
    Ora bolas, no ocidente em geral, no terceiro mundo em particular e no Brasil de maneira muito especial, não se chega sequer a enfrentar o primeiro item - o aprendizado correto da língua pelo menos por quem freqüenta escolas - e ainda temos que ouvir pessoas educadas renegando a educação que tiveram em nome de um populismo hipócrita. O que vem piorando cada vez mais. É no que dá ter no cargo máximo da nação alguém que não sabe sequer falar português. Cria a necessidade dos teóricos justificarem o absurdo dizendo que isto não é importante, e dos conformistas tomarem esta justificativa como verdade. Não é.
 
    Um dia, há milhares de anos atrás, uma família de primatas optou por descer das árvores e mudar seu modo de vida. Formavam o que se poderia chamar de "elite" daquele grupo. Antes da roda, do fogo, de tudo, eles inventaram uma linguagem. Depois outra, depois outra e assim por diante. O polegar opositor e as línguas são a base de nossa civilização, para o bom ou para o ruim. E uma língua - um idioma - só existe enquanto uniformizada por regras, que podem ser boas ou bobas. Negar a necessidade de uniformização das regras de uma linguagem - qualquer uma - é negar todas as regras existentes, que não passam de linguagem codificada. Para ficar no mais simples dos exemplos, é negar as regras de trânsito, mão e contramão, por exemplo, e deixar todo mundo andar como quiser, na velocidade que quiser, do jeito que quiser. Para tudo em menos de uma hora.
 
    Negar a necessidade de escrever corretamente por preguiça é o primeiro passo para retroceder e, ao contrário daqueles macacos que há milhares de anos desceram das árvores, iniciar o caminho de volta para o topo delas, se árvores ainda existirem para isto, o que parece pouco provável. Pior: é negar o lento processo de construção do conhecimento humano. Pois se for "difícil" aprender a falar e escrever corretamente, mais difícil ainda será aprender a fazer contas. Mais complicado será pensar. Se for difícil pensar, a curiosidade irá se esvaindo. Para que saber? O que interessam as estrelas, tão longe estão? Para que serve conhecer a vida, se ela sabe viver sozinha? 
 
    E então, pedra por pedra, tal qual a Biblioteca de Alexandria (para que saber sobre ela, aquela velharia, perguntarão alguns), o conhecimento irá sendo destruído e seremos conduzidos a um destino não muito melhor do que o de sermos como bichinhos de estimação dos orientais e de outros povos que não reclamam das dificuldades enfrentadas para aprender a pensar, desde o primeiro e mais elementar estágio de aprendizagem, que é o de saber falar e ESCREVER direito na língua de nascença.
 
    Esta reforma é insuficiente, precária, preserva bobagens, cria outras, não simplifica a escrita do Português mas, para o bem ou para o mal, devemos obedecê-la porque será incorporada à gramática, que é a Constituição do idioma. Pelo jeito, a exemplo de nossa Constituição, a reforma é de um nível de confusão e bobagem inauditos. Mas enquanto forem - Constituição e Gramática - as que temos, nos cabe observar suas regras, mesmo nos textos que eventualmente possamos escrever para tentar modificá-las.
 
     É assim, uma coisa de cada vez e seguindo a ordem, senão dá confusão e ninguém mais se entende. Vide o exemplo da Torre de Babel.
publicado por Ney Gastal às 03:03

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Terça-feira, 8 de Julho de 2008

A força de quem não perde a juventude

 "Feliz o pobre sem amargura e o rico sem soberba."

 
Quem escreveu isto foi Borges, em seu Evangelho Apócrifo, citado pelo Dr. Isaac Kelbert no discurso do jubileu de sua turma de Medicina da UFRGS. Só o discurso já tem 9 anos, imaginem a formatura.
 
Conheci o Dr. Kelbert em um boteco da Galeria Rosário, no centro de Porto Alegre. O boteco chamava-se “Madragoa”, era pouco mais que uma portinha estreita que dava para um corredor quase todo ocupado por um balcão. De um lado ficavam os atendentes, de outro os clientes. Dentro do balcão, as melhores empadas que já comi (e jamais comerei) em minha vida. Eram de siri, galinha ou de camarão. A crise do siri as reduziu apenas a galinha ou camarão. Outra crise diminuiu o tamanho das forminhas e das empadas. Mas nunca deixaram de ser excelentes.
 
Ali, ao final da década de 70 e durante os anos 80, às vezes, à tardinha, comecei a notar a presença de um senhor magro, de cabelos brancos, que tinha uma característica única. Quando falava, o bando de esfaimados que lá estava para comer empadas, ou de bebuns que empinavam seus conhaques, fazia silêncio e escutava. Ele era uma verdadeira metralhadora giratória, misturava assuntos sem costurar, mas não perdia jamais o objetivo final. Era muito divertido e consistente, com uma bagagem de erudição anárquica hoje em dia exterminada pelo método e pela disciplina. Aos poucos comecei também a escutar suas histórias e estórias. Grande tipo. Fazia as empadas ficarem ainda melhores. Um dia perguntei a um dos balconistas quem era ele. “Um médico”, respondeu. E completou: “Dr. Jacó, parece”.
 
Em 1983 um amigo me apresentou sua namorada, médica psiquiatra que também era modelo (ainda não se usava a expressão “top-model”) de Xico & César, na época a mais elegante grife de modas do Rio Grande do Sul. Ficamos amigos e um dia, com dores no peito causadas por uma gripe fortíssima, perguntei a ela se recomendava algum médico. “Meu pai”, respondeu. Me deu o nome Isaac Kelbert, e lá me fui. Enorme surpresa ao entrar no consultório e descobrir ali o senhor que contava belas histórias (e estórias). Ele não me reconheceu como um de seus ouvintes – afinal, eu nunca abrira a boca - e tivemos uma conversa estritamente médico/paciente. Como os remédios que prescreveu resolveram meu problema em poucos dias (e porque eu era moço, forte e não ficava doente com facilidade) nunca mais voltei lá.
 
O Madragoa fechou – ainda sinto saudades das empadas – e nunca mais o encontrei. Meu amigo casou com a namorada mas depois fez bobagem, a perdeu, e nunca mais a encontrei também. Então, ontem, navegando nas águas revoltas da WEB, não sei muito bem como fui atracar em um site feito por ela (a filha) sobre ele (o pai). E, nele, a transcrição do discurso que aquele senhor, Dr. Isaac Kelbert, fez no dia em que sua turma da Faculdade de Medicina comemorou os 50 anos de formatura, em 1999.
 
Pois não é que ele continuava o mesmo? Ali, na reitoria, frente a seus colegas de antigamente e a uma reitora provavelmente mais moça que ele, disparou a metralhadora giratória e fez um discurso atípico em termos acadêmicos, mas transbordante da erudição que a academia perdeu. Fui levado para o passado, aos tempos em que o escutava no velho Madragoa. Até o gostinho das empadas deu para sentir outra vez. O prazer de viajar por suas histórias, de “ouvir” (está certo, no caso de “imaginar”) sua voz outra vez, tudo foi um grande prazer e um grande barato. Dr. Isaac é o máximo, não cabe num blog, deveria escrever um, dois, muitos livros.
 
Se duvida, vá até seu blog e leia seu discurso de jubileu. Tenho certeza, vai valer a pena. O endereço é:
 
http://isaac-kelbert.blogspot.com/search/label/jubileu1999
 
sinto-me:
publicado por Ney Gastal às 19:37

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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

A meleca nos atinge a todos

Levei um puxão de orelhas de um leitor(a) anônimo(a) em função do texto anterior. Ele(a) alega que, naquele texto, acabei fazendo justamente o que condenei no primeiro sobre o mesmo assunto.

 
Bingo. O leitor tem razão.
 
Não cabia, neste furrunço universitário debater sobre rejeição a qualquer dos candidatos nem, principalmente, sobre argumentos golpistas. Diz o leitor(a) – ao que parece ligado(a) à UFRGS: “A questão toda era se haveria cumprimento à lei e aos estatutos ou se um grupo de candidatos, mesmo que sejam todos eles, pode de comum acordo mudar as regras do jogo durante a partida”. Claro, óbvio, elementar. O que estava em jogo não era apenas o resultado da eleição, mas o exemplo da comunidade da universitária à sociedade sobre a observância – ou não – das leis.
 
Errei ao cair no jogo golpista de tentar discutir o comportamento de candidatos em relação ao acordo. O acordo era ilegal, nem merece ser debatido. Este é assunto a ser levado ao Conselho para que ele decida como serão as próximas eleições, dentro da lei e dos estatutos da universidade. Senão, é como no caso (um entre tantos) do golpe militar chileno, onde a milicada liderada por Pinochet resolveu que, como Allende não havia obtido a maioria absoluta dos votos (por lei, bastava maioria simples), ele devia ser derrubado.
 
Evitado o “pinochetaço” na UFRGS, abre-se agora um novo momento para debater como serão as regras eleitorais daqui para frente, evitando-se assim, via deliberação e decisão do Consun, a abertura de novas possibilidades golpistas.
 
Obrigado ao leitor(a) anônimo(a) que apontou minha própria incoerência.
publicado por Ney Gastal às 01:04

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Sábado, 5 de Julho de 2008

Terminou a temporada de baixaria acadêmica

Terminou a confusão sucessória na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; ou, ao menos, assim se espera. Em uma longa, tensa e tumultuada reunião, o Consun (Conselho Universitário), órgão máximo da Universidade, fez o que todos deveriam ter feito: cumpriu a lei, seguiu as regras e proclamou o resultado legal. Parece simples, mas não é. Em um país onde o exemplo do descumprimento às leis vem de todos os lados, a elite pensante universitária quase sucumbiu ao “jeitinho”, motivada pelos mais variados interesses, dos políticos aos de vaidade pessoal. No Conselho, afinal, prevaleceu o bom senso. Não deixa de ser um alívio perceber que ainda se pode confiar – senão em toda – pelo menos no colegiado superior da academia, para dar um exemplo de comportamento digno.

 
Houve outros, como o do presidente da Comissão de Consulta, no colo de quem desabou um abacaxi para ser descascado com uma gilete. Ele conseguiu, mantendo uma postura correta e digna, de observância às regras estabelecidas.
 
Pausa: se você não está entendendo muito bem o que houve, role dois ou três textos deste “blog” e leia “Baixaria acadêmica”, onde faço um resumo dos fatos. Vá lá, vou esperar.
 
...
 
Muito bem. O jogo de pressões continuou na reunião do Conselho Universitário, chegando ao ponto de determinado professor misturar idéias próprias com o parecer de um eminente jurista, sem deixar isto claro, tentando defender sua posição de maneira no mínimo pouco acadêmica. (Se a ciência produzida na Universidade usar destes artifícios estaremos todos muito mal). No auge das pressões, representantes dos alunos, dos funcionários e alguns professores resolveram deixar a reunião, na tentativa de impedir seu prosseguimento. Seguidores de Jânio Quadros, blefaram e se deram mal. O quórum se manteve, a votação foi realizada e o resultado foi acachapante. Dos 51 conselheiros que ficaram na sala (de um total de 73 que assinaram presença, no início), 47 votaram referendando o candidato escolhido segundo a lei, apenas 3 votaram na candidata que incentivou a confusão e um voto foi anulado. Isto significa que, mesmo se todos os 22 que se retiraram por diversos motivos tivessem ficado e votado nela, somando-se ainda o voto anulado, ainda assim o resultado teria sido o mesmo. Derrota.
 
E aí vale uma reflexão sobre poder e vaidade. A professora Wrana Panizzi já foi reitora da UFRGS por oito anos - dois mandatos - sendo que ao final do primeiro foi reconduzida ao cargo por aclamação. Não houve outros candidatos dispostos a disputar com ela. Foi uma reitora voltada para o mundo exterior. Comparecendo a todas – menos uma – formaturas, criou em um número enorme de pessoas (pais e familiares de formandos) a imagem de ser a personificação da Universidade. Extremamente cuidadosa, evitou assuntos espinhentos, como o da proporcionalidade de votos de professores, funcionários e alunos para a eleição do reitor. Tempo não lhe faltou para levar o assunto ao Consun. Não levou.
 
Também a questão das cotas raciais, que já pipocava, foi por ela habilmente evitada. Com esta habilidade de falar bem em público, conquistar simpatias externas, evitar envolver sua administração em debates polêmicos, montar assessorias através da contratação de pessoal externo via FAURGS e distribuir agrados cuidadosamente pulverizados, fez seu sucessor, saiu com grande popularidade (aparente) e provavelmente achou que continuaria uma espécie de eminência parda na nova administração. Isto não passa de especulação, é claro, e pode estar errado. Mas pelo que se viu, quando o atual reitor não a ouviu para montar a equipe nem para decidir como administrar a Universidade, é uma suposição válida.
 
Assim, Wrana teve quatro longos anos de ostracismo acadêmico para premeditar seu retorno. Altamente centralista e controladora, não deve ter gostado dos rumos que tomou a nova administração – não gostaria de qualquer administração em que não pudesse ingerir – e, quando foram abertas as inscrições de chapas para as eleições deste ano, fez uma reentrada teatral, quase no final do prazo, certa de que seria eleita. A vaidade é péssima conselheira e ela não percebeu que aqueles que a conheciam bem, os professores, seus pares, os que melhor podiam avaliar sua administração, não a queriam de volta.
 
Quando se deu conta disto, tentou mudar as regras. Quando esta tentativa fracassou nos resultados oficiais e até o público externo começou a se manifestar pelos jornais e conversas, lamentando o papelão a que ela estava conduzindo a UFRGS, resolveu tentar um golpe de mão no Consun. Quando, tardiamente, percebeu que nem isto daria certo, tentou um novo gesto teatral. Em plena reunião do Conselho, anunciou que retirava sua candidatura, o que também não seria um ato legal. Finalmente, derrotada em duas eleições e confinada às regras que não tentou mudar enquanto reitora, mas tentou golpear agora por interesse próprio, saiu de tudo derrotada.
 
Não está morta nem aposentada. É uma pessoa capaz, hábil, inteligente e política (no bom e no mau sentido), audaciosa e capaz de um dia abandonar uma excursão pelas ilhas gregas para descer e ficar uns tempos em uma delas, carregando apenas uma sacola. Foi, no cômputo geral, uma boa reitora. Teve seu tempo. Infelizmente, não soube dominar a sede de poder e colocou em sua biografia este triste episódio que sexta-feira se encerrou. Mas, como ela mesma lembrou em sua carta tentativa de renúncia apresentada ao Conselho, cada um escolhe como quer entrar para a História.
 
Mas, no Brasil, tudo é esquecido e mesmo quem fez muito pior continua por aí. Wrana ainda tem muito a contribuir para a Universidade (inclusive em sala de aula) e para a sociedade. Se conseguir livrar-se da ambição de ser reitora uma vez mais – duas vezes já não seriam suficientes? – ainda brilhará em bons cargos. Talvez tenha tirado deste episódio algumas lições que possam ensiná-la a ser menos temperamental e arrogante, o que certamente lhe tornará bem mais fácil a vida neste – como diria Sinatra – outono da existência.
 
Do vencedor do processo, professor Alex (por sinal ex-pró-reitor de Wrana; se ilude muito que pensa que a UFRGS, nos últimos 30 anos, alguma vez elegeu uma chapa efetivamente de “oposição”) se espera que tenha a coragem de pavimentar o caminho para que a próxima eleição – se for o caso – tenha as regras modificadas a tempo de evitar um novo vexame. Afinal, quem pode garantir que entre seus candidatos não estará, outra vez... não, não, melhor pensar que não.
sinto-me:
publicado por Ney Gastal às 19:05

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Casamento à antiga

Não sei onde foi publicado este texto. O recebi via internet, e, como acontece com lamentável freqüência, sem registro de origem. Suponho que deva ter sido publicado no Correio do Povo. Como, faz muito tempo, pedi e obtive autorização do autor para reproduzir seus textos em um site que então editava, vou me aproveitar dela para publicar aqui este que é, para mim, a melhor e mais sensível análise sobre a morte de Dona Ruth Cardoso. O texto é de Juremir Machado da Silva. Vejam só que beleza:

 

 

As imagens do desamparo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso junto ao caixão da esposa, Ruth, emocionaram o Brasil. Estava ali um homem realmente ferido pela perda. Fiquei arrepiado. O país inteiro arrepiou-se. Existem, neste mundo moderno, muitas formas de casamento. Uma delas sempre me chama a atenção: o casamento de cumplicidade. É a união de um casal de longo tempo por meio de muitas aventuras e desventuras, um cimento inquebrável. Fernando Henrique e Ruth estiveram casados por 56 anos. Construíram tudo juntos, da profissão ao êxito político dele. Experimentaram o exílio. Discutiram idéias. Intelectuais brilhantes, eles publicaram livros e viram o mundo. A política, de certo modo, foi o menos importante.


Na época em que eu estudava Antropologia, li textos de Ruth Cardoso. Havia qualidade, pertinência e sensibilidade em suas análises. Para nós, ela era e continuaria sendo a antropóloga Ruth Cardoso, um modelo de pesquisadora. Quando eu era estudante de História, li o que Fernando Henrique fez de melhor na vida, 'Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional'. É impossível esquecer esses escritos. Fiquei pensando numa frase de outro antropólogo, o mais famoso do século XX, Claude Lévi-Strauss, que completará 100 anos em novembro, 'o mundo começou sem o homem e terminará sem ele'. É sabido que todas as nossas glórias são vãs. A fragilidade de Fernando Henrique durante o velório da mulher com quem partilhou a vida era apenas uma manifestação concreta dessa obviedade. Imagino que a mesma cumplicidade una o atual presidente e sua esposa. O poder nada pode contra isso. Tudo passa. Menos o grande amor.


Ali, junto ao caixão, estava Fernando Henrique, não o FHC inventado pela máquina de moer políticos de uma esquerda que julgava se diferenciar dos outros por uma marca ontológica, essencial, metafísica, representar o bem contra o mal. Já foi. Tudo perece. Diferenças hoje, caso existam, são programáticas. Imagino que Ruth Cardoso tenha sofrido ao longo desse processo de diabolização. As fofocas garantem que Fernando Henrique nem sempre foi fiel. Não o desculpo. Nem o condeno. Constato que seu amor se mostrou até a última cena. Não pretendo construir agora uma idealização. Nunca sequer votei em Fernando Henrique. De certo modo, a sua trajetória política, especialmente como presidente da República, obscureceu um pouco o valor intelectual da sua mulher e também o seu, embora não tenha sido a catástrofe anunciada pelos seus adversários.


Demonizar e humilhar o outro é a característica principal do jogo político. A lógica partidária sobrepuja o interesse comum. O mesmo ocorre agora com um homem que já mostrou ser muito inteligente, mas que, por não ter uma educação formal elevada, enfrenta o desprezo de setores elitistas. Tenho certeza de que Ruth, assim como Marisa, deve ter segurado muitas ondas de um marido às voltas com as contradições da política e das próprias ambições. Não guardei na memória imagens da época de Fernando Henrique no poder. Essas imagens edificantes se repetem, todas marcadas pela estética positivista da autoridade. A imagem, contudo, de Fernando Henrique, destituído de qualquer poder, vacilando diante do inexorável, ficará por muito tempo em minha mente. Estava ali a potência humana: a aliança que nem a morte destrói. Ao final, volta-se ao começo.

 

publicado por Ney Gastal às 03:09

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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Como um soluço causado pelo vento

Sempre achei estranha a expressão "blog". Meio indecifrável. Na verdade, o som mais me parece onomatopéico (horrível, esta palavra)  para soluço. E soluço é um negócio que dá, passa e volta, quando menos se espera. Assim, depois de uma arrancada entusiasmada seguida de uma parada de quase três meses, este "blog" ressuscita por mais uns tempos, para em breve virar site. Por enquanto, vou por aqui. Vem comigo. Tem umas coisas divertidas e outras preocupantes para ler nestas páginas.

publicado por Ney Gastal às 23:35

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