Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Porque não se pode matar dodôs

Faz doze anos, recebi o texto abaixo em um panfleto mimeografado. Gostei tanto que o redigitei todo e o enviei, pela nascente internet, para meus amigos. Agora, em meio a esta polêmica sobre a subserviência do nossos poderosos aos interesses estrangeiros que aqui chegam ditando normas, sem respeitar as leis locais como respeitam as de seus países de origem, lembrei do texto e resolvi divulgá-lo aqui. É sobre o que pode acontecer a quem mexe com ecossistemas sem respeitar as leis da natureza, como estão fazendo no pampa gaúcho.
Atenção: o que vai publicado aí embaixo é uma fábula, mas recentemente cientistas descobriram que uma espécie de árvore das ilhas Maurício estava se extinguindo. Foram estudá-la e descobriram que as últimas ainda existentes eram de antes da extinção dos dodôs. Hoje esta espécie é conhecida como “árvore dodô”. E foi salva com a importação de perus para fazer o papel de dodôs.
 
Saúl Schkolnik é um escritor chileno. Nasceu em 1929, formou-se arquiteto e só começou a escrever aos 48 anos. Produz literatura infantil e adulta, sempre com forte cunho científico e ecológico. Tem vários prêmios chilenos e internacionais, e o reconhecimento da comunidade científica pela seriedade com que trata assuntos normalmente complicados para crianças.
  
 
Porque não se pode matar dodôs
 
Texto de Saúl Schkolnik
 
Em uma pequena e montanhosa ilha do Mar Índico, chamada Ilha Maurício, lá pelo ano de 1660 vivia João, tecelão famoso pela qualidade de suas esteiras e chapéus. Ninguém sabia o segredo de fabricação dos tecidos que ele fazia, mas em sua ilha cresciam esbeltas palmeiras, de cujos frutos, uns coquinhos com a casca dura e grossa coberta com uma capa de fibras, João obtinha o material para trabalhar. Era o mesmo que faziam os artesãos das ilhas próximas, mas os trabalhos de João eram melhores, muito mais macios que os de seus vizinhos.
- Teresa – dizia ele à sua mulher – vamos ver se os caranguejos já fizeram seus ninhos? E ambos desciam à praia e procuravam ao pé das palmeiras, entre as bromélias.
- Este é o meu segredo – dizia ele a sua mulher, enquanto recolhiam os ninhos. – Os caranguejos arrancam a fibra que cobre os cocos e a amaciam até deixá-la convertida em fibras suaves, com as quais fabricam seus ninhos. E eu utilizo essa fibra suave, feita pelos caranguejos, ao invés da fibra dura do coco para fazer meus tecidos.
Durante a primavera, a praia se cobria de bromélias vermelhas, e os beija-flores, revoluteavam junto à flores, bebendo seu néctar. O que João e Teresa não sabiam era que os beija-flores, além de beber o néctar das flores, permitiam a polinização das bromélias, pois sua cabecinha se impregnava do pólen das flores e eles o transportavam para outras. As sementes assim fertilizadas das bromélias caíam nas fendas dos troncos das palmeiras e a planta logo crescia, arrastando-se também para a areia. Os beija-flores, por sua vez, construíam seus ninhos nas palmeiras de um ou dois anos, pois não gostavam da dureza das folhas das árvores velhas. 
- Que faríamos nós sem as palmeiras? – havia perguntado Teresa em certa ocasião.
- Melhor nem pensar – respondeu João. – Sem as palmeiras não teríamos os cocos, nem os ninhos de caranguejo... Melhor nem pensar...
E havia também os dodôs!
- João... João – gritava Teresa quando enxergava algum – aí está outro desses pássaros horríveis!
E João, armado de um garrote, saía a perseguir ao dodô e o golpeava até matá-lo.
João os matava porque os dodôs comiam um bocado dos cocos de que tanto necessitava o tecelão. O dodô, grande como um pavão e parecido com uma pomba, corria e corria, pois não podia voar. Porém, como era muito lerdo e pesado, sempre era alcançado por João. E assim corria a rotina da vida na ilha.
Até que um dia não havia mais dodôs. João havia matado a todos. Não sobrara nenhum. Ninguém mais comeria os tão necessários frutos das palmeiras. João achou seus problemas tinham acabado.
- Por fim! – disse ele à mulher – Acabaram os dodôs. Não há mais nada com que nos preocuparmos. Agora vamos ter mais cocos, fazem mais tecidos e ficar mais ricos           
            Passou-se um ano, e tudo parecia igual ao de costume. Algo porém chamou à atenção de Teresa.
- Percebeste, João, que não existem brotos de palmeiras este ano?
- Para que te preocupas, mulher, se há tantas palmeiras? –respondeu o tecelão.
No ano seguinte ocorreu o mesmo: nem um só broto novo apareceu no lugar. Então ambos preocuparam-se um pouco. Mas havia tantas palmeiras que logo esqueceram daquele estranho fenômeno.
Eles não percebiam o que estava acontecendo, que as palmeiras estavam ficando velhas, morrendo, e nenhum novo broto voltava a aparecer. E não sabiam que não havia palmeiras novas por que não havia dodôs. Normalmente, os cocos caem ao solo e depois de algum tempo o embrião em seu interior produz uma raiz. A raiz cresce e, ploft!, rompe a casca, se enterra na areia e plump!, o diminuto talo verde sai ao ar e, ao fim de um par de anos, outra grande palmeira agitará suas folhas junto ao mar.
João não entendia porque isto não estava acontecendo: “Aí estão os cocos, milhares deles, não vejo por que não brotam”, exclamava indignado, mostrando a praia.
Porém, as palmeiras da Ilha Maurício eram de espécie muito especial. Seus frutos, como já vimos, tinham uma casca tão dura que a raiz, por mais força que fizesse, não conseguia rompê-la. Aí é que entrava o dodô. O dodô comia um bocado do pequenos coquinhos, tantos, mesmo, que por isso era perseguido por João. Que não sabia da importância do dodô.
O coquinho engolido passava por todo o sistema digestivo do pássaro. Ali, os músculos trituradores e os sucos digestivos conseguiam amolecer sua casca dura, mas não a desmanchavam completamente. Assim, quando finalmente o coco era eliminado, junto com todo o alimento não digerido, ele voltava a cair inteiro na areia.
E em seguida então, ploft! A raiz conseguia romper a casca, agora macia, e se enterrava na areia. Depois, plump! Um diminuto talo verde saia ao ar e rápido, muito rápido se convertia em outra bonita palmeira.
Era o dodô que, ao comer aqueles frutos, permitia que as palmeiras se reproduzissem; desaparecendo os dodôs, não houve novas palmeiras.
O mais terrível, no entanto, aconteceu ao terceiro ano.
- Não vi nenhum beija-flor esta primavera – disse Teresa.
- Tens razão Teresa – respondeu João. – Seguramente voltarão no ano que vem.
Mas os beija-flores não voltariam. Eles faziam seus ninhos somente nas palmeiras de um ou dois anos. Como já não havia palmeiras jovens, os passarinhos não conseguiram fazer ninhos. Sem ninhos, não tiveram filhotes. E sem poder ter filhotes na Ilha Maurício, tentaram ir para outros lugares. Ao desaparecerem os beija-flores, ninguém polinizou as bromélias, que começaram a morrer sem deixar mudas novas. E, aos poucos, também os ninhos dos caranguejos começaram a desaparecer, porque eles não encontravam os cocos de onde obtinham as fibras para fazê-los. Assim, passados quatro anos, quando João e Teresa desceram à praia para buscar ninhos de caranguejos para usar a fibra suave para fazer esteiras, cestos e chapéus, não encontraram nada.
- João – disse Teresa, assustada – o que terá ocorrido? Não há um só ninho de caranguejo!
- Tens razão mulher, e isto é terrível, porque meus tecidos já não serão os mesmos, nem tão suaves, nem tão bonitos.
- Mas que tecidos vais fazer, se cada vez há menos palmeiras para produzir coquinhos? Nem duros, nem macios, não vamos poder fazer mais nada – respondeu chorando Teresa.
“Que terá ocorrido?”, se perguntavam ambos, sem saber que eles mesmos eram os responsáveis pelo que ocorria, por terem matado aos dodôs.
Eles não sabiam nem podiam sabê-lo. Morreram pobres, numa ilha quase sem vegetação. Mas tu sabes. Por isso, se visses um dia algum dodô, coisa que já não é mais possível, saberias porque não poderias matá-lo. E assim também, antes de exterminar qualquer outra espécie, antes de destruir qualquer área natural, pensa, pensa bem, pensa muito, pois sem saber, como João e Teresa fizeram, podes estar destruindo tua própria vida.
publicado por Ney Gastal às 10:02

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2 comentários:
De Lis a 25 de Maio de 2008 às 17:24
Esta fábula me lem brou da lagartixa do Taim...
De Lis a 25 de Maio de 2008 às 17:29
ops, não era do Taim, né?
mas era no Rio Grande,disto tenho certeza!

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