Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Filhotes de onça

Ximbica é empresário de sucesso em Porto Alegre, nem velho nem moço, nem de direita nem de esquerda, nem agitador nem acomodado. Um livre pensador. Claro que seu nome não é este, mas como, na posição que tem, poderia assinar certas coisas? Então virou "Ximbica", sabe lá Deus por que deste pseudônimo, para escrever aqui. Leiam seus textos. A julgar por este, vão valer a pena.
 
Eram umas cinco ou seis motinhos, dois quadricículos e um buggy. Encima das motos dois, três e até quatro, dos quadricículos uns seis ou sete e no buggy uns dez garotos. Todos entre os dez e os treze anos no máximo. Vá lá, os do buggy poderiam ter quinze ou dezesseis, não mais. No total mais de vinte crianças alegres e descontraídas a correr pelas alamedas e ruas do condomínio. Uma festa de irresponsabilidade aos olhos de vaidosos e orgulhosos papais e mamães da nossa classe média alta. Todos sem capacetes ou qualquer outro equipamento de segurança e também todos acima do limite de velocidade preconizado para as vias internas do lugar– um dos condomínios fechados da hight society gaúcha.
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Logo a seguir outro bando, esse de bicicletas, andando pelo meio da rua. Mais jovens que os primeiros são aprendizes atentos dos mais velhos. Ano que vêm serão eles os motorizados. Incrível como criamos e até incentivamos esses pequenos transgressores. Amanhã ou hoje a noite mesmo, ficarão com seus pares, transarão sem camisinha e contrairão suas primeiras doenças venéreas – melhor ficarmos por aqui, sabemos que pode ser pior. Afinal se conhecem desde crianças e seus pais são amigos de há muito. Todos de ótimas famílias, é claro. Como exigir o uso de preservativos? Como querer que usem capacete? Que andem dentro dos limites? Daqui a pouco serão os mesmos a surrar uma domestica em um ponto de ônibus ou a atear fogo em um mendigo na praça. Claro que dirigirão bêbados assim como seus pais. Também tentarão subornar os policiais rodoviários na primeira oportunidade que tiverem.  Afinal é o exemplo que tem.
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Não nos iludamos, estamos criando pequenos monstros. Crescem a sombra das nossas transgressões e não podem ser muito diferentes. Cansam de ver suas mães, em fila dupla, discutirem e desacatarem os guardas na saída da escola e, mesmo multadas, desdenharem a autoridade do pobre serviçal ali colocado para ordenar as coisas.  É inacreditável que sob nossas barbas permitamos que essas coisas aconteçam e que continuemos dando maus exemplos como se eles não fossem perceber. Faça o que digo não o que faço. Essa é a máxima que gostaríamos que norteasse nossas vidas e a educação dos nossos filhos. Não existe, não é assim que as coisas funcionam. Ou nos conscientizamos ou amanhã não teremos sequer o direito de nos queixar ao bispo. Filhos de onça já nascem pintados. É a legitima e irreversível lei da selva.
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Merecemos outra?
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Acho que sim, que dá para virar o jogo. Mas temos que começar pelo nosso comportamento. Precisamos criar mecanismos que acabem com a impunidade com que somos contemplados quando erramos e contrariamos ou infringirmos as regras e as leis. Inacreditável não nos darmos conta disso. Basta! Vamos construir uma sociedade melhor para essas crianças. Só depende de nós.
Ximbica
publicado por Ney Gastal às 04:36

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