Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Afinal, alguém traiu?

  Da série "não saiu" - 1:  

 

Tenho praticamente - faltam alguns meses - quarenta anos de jornalismo. Muito tempo para bancar o ingênuo. Ao longo deste período tive textos censurados (pela censura, mesmo), bloqueados, impedidos, reprimidos e que geraram ameaças. Todos somados não chegam a um décimo dos que apenas "não saíram". Os textos que "não saem" ficam em um limbo. Nunca há uma explicação convincente. Houve época até em que não saia porque poderia por o autor em risco e o editor optava por protegê-lo. Mas a maioria não sai porque pode ferir interesses da empresa ou de alguém importante para a empresa, ou do editor. Estes ainda são poucos frente ao motivo dominante para que um texto não seja publicado, justamente o mais prosaico de todos: pura, simples e corriqueira falta de espaço.

 

Só quem já foi editor sabe o verdadeiro inferno que é selecionar o que vai e o que não vai ganhar espaço. E por saber deste inferno, jamais questiono quando um texto que gostaria muito de ver publicado simplesmente não o é. Ao contrário da maioria dos autores nesta situação, por conhecer o inferno de ser editor jamais imagino teorias conspiratórias para tentar explicar por que determinado texto "sumiu" no limbo. Prefiro sempre acreditar que foi falta de espaço ou que ele não valia a pena para o espaço pretendido. Resolvi publicar alguns destes textos aqui, vez que outra, sempre sob esta introdução. Cada um que julgue se, de seu ponto de vista, ele deveria ou não ter conquistado o espaço que almejou.

 

Feijó traiu? Depende.
 
Foi ele quem pediu a reunião? Se não foi, isso reduz as possibilidades de ser chamado de traidor. Sabe-se lá quantas conversas já teve, quantos emissários recebeu para tratar do mesmo assunto: o que quer para deixar de bater no governo. Todos sabem: Feijó quer ser ouvido e quer derrubar o presidente do Banrisul. Habilmente, sempre reafirma a primeira e deixa nas sombras a segunda exigência. Inabilmente, a governadora jamais atendeu sequer a primeira.
 
Tivesse o chamado desde o início para participar, Yeda teria colocado Feijó em um brete: ou aceitaria o fato de que não se ganha todas, ou teria que assumir que tem um problema pessoal com o presidente do Banrisul. Mas a governadora, todos o dizem, não é de escutar ninguém e gosta de provocar cizânia entre os auxiliares. Ela acredita na técnica do “dividir para governar”, uma bobagem para quem já carrega na própria função o título de “governadora”.
 
Sendo assim, a culpa é de Yeda. Ela instaurou o medo e a insegurança no governo. Feijó foi apenas o primeiro a abrir o jogo. Se algum erro cometeu, é que antes de divulgar a fita deveria ter feito a denúncia dos fatos. Caso Busatto negasse, só então deveria ter mostrado as gravações.
 
Busatto, por outro lado, sempre foi respeitado pela clareza de posições. Durante os anos do governo Britto eu costumava chamá-lo, para amigos comuns, de “o mais petista dos peemedebistas”, tal seu fervor no embate. Jamais foi tolerante no verbo, nunca foi “misericordioso” na ação. Como pode agora pedir misericórdia àqueles a quem trucidou? Faria melhor se reconhecesse a incoerência entre o que disse a Feijó e o que defendia antes. Ficaria na companhia de tantos outros que, nos últimos anos, traíram tudo o que haviam dito e escrito, até peremptoriamente. Continuam todos eles por aí.
 
De tudo, fica o crescimento da popularidade do vice, que também se reflete no aumento das críticas feitas a ele. Já não é impossível imaginar nas eleições de 2010 um embate ideológico finalmente claro para o eleitorado gaúcho: de um lado o deputado Pont, pela esquerda, e de outro Feijó, congregando a direita. Uma esquerda menos furiosa e uma direita menos raivosa do que estas que andam por aí, fruto de “composições plurais”. Sem dúvida uma esquerda e uma direita capitaneadas por pessoas que até agora não foram chamuscadas pelo exercício da política.
 
Pode ser pouco, mas a esta altura é lucro. 
 
 

Uma curiosidade sobre este texto, escrito e encaminhado em 10 de junho passado. Originalmente seu título era outro e ele começava assim: "Nem física, nem em temperamento, pode-se dizer que Busato tenha algo de Bentinho, nem Feijó de Capitú". E seguia, fazendo uma análise sobre "traição", passando por Capitú, Calabar, Judas e outros "traidores" famosos a quem o tempo e a razão deram o benefício da dúvida: traíram? O que, afinal, merece ser chamado de traição. Ficou um texto enorme. Como o espaço oferecido era pequeno, fui cortanto, cortando, cortando até restar isto aí em cima, que afinal não foi publicado. E, pior, não salvei a versão original, perdida para sempre no espaço virtual.

 

Ah! Talvez seja tarde para avisar, mas este texto só poderá ser bem entendido por quem vive o Rio Grande do Sul, no estado ou fora dele. É um assunto muito regional, que envolve uma gravação feita pelo vice-governador de uma conversa com o chefe da Casa Civil que resultou no maior bochincho.

publicado por Ney Gastal às 22:12

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