Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Baixaria acadêmica

 Da série "não saiu" - 2:

  

Tenho praticamente - faltam alguns meses - quarenta anos de jornalismo. Muito tempo para bancar o ingênuo. Ao longo deste período tive textos censurados (pela censura, mesmo), bloqueados, impedidos, reprimidos e que geraram ameaças. Todos somados não chegam a um décimo dos que apenas "não saíram". Os textos que "não saem" ficam em um limbo. Nunca há uma explicação convincente. Houve época até em que não saia porque poderia por o autor em risco e o editor optava por protegê-lo. Mas a maioria não sai porque pode ferir interesses da empresa ou de alguém importante para a empresa, ou do editor. Estes ainda são poucos frente ao motivo dominante para que um texto não seja publicado, justamente o mais prosaico de todos: pura, simples e corriqueira falta de espaço.

 

Só quem já foi editor sabe o verdadeiro inferno que é selecionar o que vai e o que não vai ganhar espaço. E por saber deste inferno, jamais questiono quando um texto que gostaria muito de ver publicado simplesmente não o é. Ao contrário da maioria dos autores nesta situação, por conhecer o inferno de ser editor jamais imagino teorias conspiratórias para tentar explicar por que determinado texto "sumiu" no limbo. Prefiro sempre acreditar que foi falta de espaço ou que ele não valia a pena para o espaço pretendido. Resolvi publicar alguns destes textos aqui, vez que outra, sempre sob esta introdução. Cada um que julgue se, de seu ponto de vista, ele deveria ou não ter conquistado o espaço que almejou.

 

Neste caso, trata-se de um texto sobre a confusão instaurada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul a partir de um conluio de todos os candidatos a reitor, para  burlar a legislação vigente, fazendo valer, para fins de apuração, não o que manda a Lei, mas um conchavo do qual todos participaram e o qual, muito provavelmente, nenhum estava disposto a cumprir, caso fosse o vencedor legal. O texto, de 26 de junho deste ano, fala por si. Ou, ao menos, tentou falar, pois "não saiu". Curiosidade: o assunto será decidido pelo Conselho Universitário amanhã, dia seguinte à publicação do texto neste blog. 

 

Como ex-aluno, ex-assessor de imprensa e estudioso dos processos sucessórios na UFRGS desde 1980, gostaria de colaborar para a melhor compreensão sobre o que está acontecendo: uma tentativa de golpe, da qual curiosamente TODOS os candidatos são cúmplices. É simples. Existe um conjunto de leis federais que rege o processo de escolha. Segundo estas leis, “em caso de consulta prévia à comunidade universitária (...) prevalecerão a votação uninominal e o peso de setenta por cento para a manifestação do pessoal docente em relação à das demais categorias”. Ou seja, o voto dos professores têm peso diferenciado e muito mais alto do que o de funcionários e alunos. Além disso, apenas professores podem concorrer ao cargo.
 
A vantagem proporcional do voto dos professores vem sendo contestada em várias instituições, em nome da pretensa (todas vivem de verbas públicas) “autonomia universitária”. Tais universidades, através de decisões de seus Conselhos Universitários, mudaram as regras de proporcionalidade, dando novos pesos aos votos de funcionários e alunos.
 
A UFRGS nunca fez isto. E às vésperas da eleição, os quatro candidatos, em vez de recorrerem ao Conselho pedindo a mudança das regras, optaram por assinar um “acordão” entre si, estabelecendo novos pesos. Claro, tratou-se de conchavo, de uma conspiração, algo que não tem valor frente à legislação vigente, nem pode encontrar respaldo por parte do Conselho Universitário. Além disso, é esperável considerar que nenhuma das chapas pretendia manter o acordado, caso fosse a vencedora pelas normas vigentes.
 
Isto, apenas, já seria motivo de confusão. Mas aconteceu pior. Em seu conchavo, os “conspirantes” lembraram de dizer a regra legal que pretendiam quebrar, mas não de estabelecer previamente uma outra regra que (em tese) pretendessem cumprir. Resultado: além de existir um vencedor “oficial”, segundo as regras vigentes, existem dúvidas sobre quem seria o vencedor segundo o resultado conchavado, porque esqueceram de estabelecer as normas de ponderação dos votos antecipadamente.
 
Um velho dito popular brasileiro diz que “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. A UFRGS parece ter resolvido provar sua veracidade, mostrando que a elite acadêmica, que dedica a vida a estudar, entre outras coisas, conspirações e matemática, não sabe conspirar nem fazer contas. Mas isto é um falso dilema. Todas as discussões sobre como ponderar os votos de cada grupo não têm razão de ser. A norma legal não foi mudada, nem em nível federal nem pelo CONSUN, de modo que o vencedor é quem venceu através de seus termos. O resto é conchavo, conspiração, despeito e desrespeito às leis.
 
Em um momento em que o Brasil se debate frente a tantos escândalos para saber se o que vale é a Lei ou os conchavos de interesses, é lamentável que a mais importante universidade daquele que é tido como o mais politizado dos estados dê tamanha demonstração de baixaria política. A hora de mudar as regras era antes, e o local o Congresso Nacional ou o Conselho Universitário. Nenhum dos candidatos fez isto. Conviria agora, pelo menos, aprenderem a aceitar a derrota com alguma dignidade.
 
Quanto ao novo reitor, tem a obrigação de fazer desta questão um de seus primeiros encaminhamentos ao CONSUN, para que a bagunça não se repita daqui a quatro anos.

 

  

publicado por Ney Gastal às 22:57

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