Sábado, 5 de Julho de 2008

Casamento à antiga

Não sei onde foi publicado este texto. O recebi via internet, e, como acontece com lamentável freqüência, sem registro de origem. Suponho que deva ter sido publicado no Correio do Povo. Como, faz muito tempo, pedi e obtive autorização do autor para reproduzir seus textos em um site que então editava, vou me aproveitar dela para publicar aqui este que é, para mim, a melhor e mais sensível análise sobre a morte de Dona Ruth Cardoso. O texto é de Juremir Machado da Silva. Vejam só que beleza:

 

 

As imagens do desamparo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso junto ao caixão da esposa, Ruth, emocionaram o Brasil. Estava ali um homem realmente ferido pela perda. Fiquei arrepiado. O país inteiro arrepiou-se. Existem, neste mundo moderno, muitas formas de casamento. Uma delas sempre me chama a atenção: o casamento de cumplicidade. É a união de um casal de longo tempo por meio de muitas aventuras e desventuras, um cimento inquebrável. Fernando Henrique e Ruth estiveram casados por 56 anos. Construíram tudo juntos, da profissão ao êxito político dele. Experimentaram o exílio. Discutiram idéias. Intelectuais brilhantes, eles publicaram livros e viram o mundo. A política, de certo modo, foi o menos importante.


Na época em que eu estudava Antropologia, li textos de Ruth Cardoso. Havia qualidade, pertinência e sensibilidade em suas análises. Para nós, ela era e continuaria sendo a antropóloga Ruth Cardoso, um modelo de pesquisadora. Quando eu era estudante de História, li o que Fernando Henrique fez de melhor na vida, 'Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional'. É impossível esquecer esses escritos. Fiquei pensando numa frase de outro antropólogo, o mais famoso do século XX, Claude Lévi-Strauss, que completará 100 anos em novembro, 'o mundo começou sem o homem e terminará sem ele'. É sabido que todas as nossas glórias são vãs. A fragilidade de Fernando Henrique durante o velório da mulher com quem partilhou a vida era apenas uma manifestação concreta dessa obviedade. Imagino que a mesma cumplicidade una o atual presidente e sua esposa. O poder nada pode contra isso. Tudo passa. Menos o grande amor.


Ali, junto ao caixão, estava Fernando Henrique, não o FHC inventado pela máquina de moer políticos de uma esquerda que julgava se diferenciar dos outros por uma marca ontológica, essencial, metafísica, representar o bem contra o mal. Já foi. Tudo perece. Diferenças hoje, caso existam, são programáticas. Imagino que Ruth Cardoso tenha sofrido ao longo desse processo de diabolização. As fofocas garantem que Fernando Henrique nem sempre foi fiel. Não o desculpo. Nem o condeno. Constato que seu amor se mostrou até a última cena. Não pretendo construir agora uma idealização. Nunca sequer votei em Fernando Henrique. De certo modo, a sua trajetória política, especialmente como presidente da República, obscureceu um pouco o valor intelectual da sua mulher e também o seu, embora não tenha sido a catástrofe anunciada pelos seus adversários.


Demonizar e humilhar o outro é a característica principal do jogo político. A lógica partidária sobrepuja o interesse comum. O mesmo ocorre agora com um homem que já mostrou ser muito inteligente, mas que, por não ter uma educação formal elevada, enfrenta o desprezo de setores elitistas. Tenho certeza de que Ruth, assim como Marisa, deve ter segurado muitas ondas de um marido às voltas com as contradições da política e das próprias ambições. Não guardei na memória imagens da época de Fernando Henrique no poder. Essas imagens edificantes se repetem, todas marcadas pela estética positivista da autoridade. A imagem, contudo, de Fernando Henrique, destituído de qualquer poder, vacilando diante do inexorável, ficará por muito tempo em minha mente. Estava ali a potência humana: a aliança que nem a morte destrói. Ao final, volta-se ao começo.

 

publicado por Ney Gastal às 03:09

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