Sábado, 5 de Julho de 2008

Terminou a temporada de baixaria acadêmica

Terminou a confusão sucessória na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; ou, ao menos, assim se espera. Em uma longa, tensa e tumultuada reunião, o Consun (Conselho Universitário), órgão máximo da Universidade, fez o que todos deveriam ter feito: cumpriu a lei, seguiu as regras e proclamou o resultado legal. Parece simples, mas não é. Em um país onde o exemplo do descumprimento às leis vem de todos os lados, a elite pensante universitária quase sucumbiu ao “jeitinho”, motivada pelos mais variados interesses, dos políticos aos de vaidade pessoal. No Conselho, afinal, prevaleceu o bom senso. Não deixa de ser um alívio perceber que ainda se pode confiar – senão em toda – pelo menos no colegiado superior da academia, para dar um exemplo de comportamento digno.

 
Houve outros, como o do presidente da Comissão de Consulta, no colo de quem desabou um abacaxi para ser descascado com uma gilete. Ele conseguiu, mantendo uma postura correta e digna, de observância às regras estabelecidas.
 
Pausa: se você não está entendendo muito bem o que houve, role dois ou três textos deste “blog” e leia “Baixaria acadêmica”, onde faço um resumo dos fatos. Vá lá, vou esperar.
 
...
 
Muito bem. O jogo de pressões continuou na reunião do Conselho Universitário, chegando ao ponto de determinado professor misturar idéias próprias com o parecer de um eminente jurista, sem deixar isto claro, tentando defender sua posição de maneira no mínimo pouco acadêmica. (Se a ciência produzida na Universidade usar destes artifícios estaremos todos muito mal). No auge das pressões, representantes dos alunos, dos funcionários e alguns professores resolveram deixar a reunião, na tentativa de impedir seu prosseguimento. Seguidores de Jânio Quadros, blefaram e se deram mal. O quórum se manteve, a votação foi realizada e o resultado foi acachapante. Dos 51 conselheiros que ficaram na sala (de um total de 73 que assinaram presença, no início), 47 votaram referendando o candidato escolhido segundo a lei, apenas 3 votaram na candidata que incentivou a confusão e um voto foi anulado. Isto significa que, mesmo se todos os 22 que se retiraram por diversos motivos tivessem ficado e votado nela, somando-se ainda o voto anulado, ainda assim o resultado teria sido o mesmo. Derrota.
 
E aí vale uma reflexão sobre poder e vaidade. A professora Wrana Panizzi já foi reitora da UFRGS por oito anos - dois mandatos - sendo que ao final do primeiro foi reconduzida ao cargo por aclamação. Não houve outros candidatos dispostos a disputar com ela. Foi uma reitora voltada para o mundo exterior. Comparecendo a todas – menos uma – formaturas, criou em um número enorme de pessoas (pais e familiares de formandos) a imagem de ser a personificação da Universidade. Extremamente cuidadosa, evitou assuntos espinhentos, como o da proporcionalidade de votos de professores, funcionários e alunos para a eleição do reitor. Tempo não lhe faltou para levar o assunto ao Consun. Não levou.
 
Também a questão das cotas raciais, que já pipocava, foi por ela habilmente evitada. Com esta habilidade de falar bem em público, conquistar simpatias externas, evitar envolver sua administração em debates polêmicos, montar assessorias através da contratação de pessoal externo via FAURGS e distribuir agrados cuidadosamente pulverizados, fez seu sucessor, saiu com grande popularidade (aparente) e provavelmente achou que continuaria uma espécie de eminência parda na nova administração. Isto não passa de especulação, é claro, e pode estar errado. Mas pelo que se viu, quando o atual reitor não a ouviu para montar a equipe nem para decidir como administrar a Universidade, é uma suposição válida.
 
Assim, Wrana teve quatro longos anos de ostracismo acadêmico para premeditar seu retorno. Altamente centralista e controladora, não deve ter gostado dos rumos que tomou a nova administração – não gostaria de qualquer administração em que não pudesse ingerir – e, quando foram abertas as inscrições de chapas para as eleições deste ano, fez uma reentrada teatral, quase no final do prazo, certa de que seria eleita. A vaidade é péssima conselheira e ela não percebeu que aqueles que a conheciam bem, os professores, seus pares, os que melhor podiam avaliar sua administração, não a queriam de volta.
 
Quando se deu conta disto, tentou mudar as regras. Quando esta tentativa fracassou nos resultados oficiais e até o público externo começou a se manifestar pelos jornais e conversas, lamentando o papelão a que ela estava conduzindo a UFRGS, resolveu tentar um golpe de mão no Consun. Quando, tardiamente, percebeu que nem isto daria certo, tentou um novo gesto teatral. Em plena reunião do Conselho, anunciou que retirava sua candidatura, o que também não seria um ato legal. Finalmente, derrotada em duas eleições e confinada às regras que não tentou mudar enquanto reitora, mas tentou golpear agora por interesse próprio, saiu de tudo derrotada.
 
Não está morta nem aposentada. É uma pessoa capaz, hábil, inteligente e política (no bom e no mau sentido), audaciosa e capaz de um dia abandonar uma excursão pelas ilhas gregas para descer e ficar uns tempos em uma delas, carregando apenas uma sacola. Foi, no cômputo geral, uma boa reitora. Teve seu tempo. Infelizmente, não soube dominar a sede de poder e colocou em sua biografia este triste episódio que sexta-feira se encerrou. Mas, como ela mesma lembrou em sua carta tentativa de renúncia apresentada ao Conselho, cada um escolhe como quer entrar para a História.
 
Mas, no Brasil, tudo é esquecido e mesmo quem fez muito pior continua por aí. Wrana ainda tem muito a contribuir para a Universidade (inclusive em sala de aula) e para a sociedade. Se conseguir livrar-se da ambição de ser reitora uma vez mais – duas vezes já não seriam suficientes? – ainda brilhará em bons cargos. Talvez tenha tirado deste episódio algumas lições que possam ensiná-la a ser menos temperamental e arrogante, o que certamente lhe tornará bem mais fácil a vida neste – como diria Sinatra – outono da existência.
 
Do vencedor do processo, professor Alex (por sinal ex-pró-reitor de Wrana; se ilude muito que pensa que a UFRGS, nos últimos 30 anos, alguma vez elegeu uma chapa efetivamente de “oposição”) se espera que tenha a coragem de pavimentar o caminho para que a próxima eleição – se for o caso – tenha as regras modificadas a tempo de evitar um novo vexame. Afinal, quem pode garantir que entre seus candidatos não estará, outra vez... não, não, melhor pensar que não.
sinto-me:
publicado por Ney Gastal às 19:05

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