Terça-feira, 8 de Julho de 2008

A força de quem não perde a juventude

 "Feliz o pobre sem amargura e o rico sem soberba."

 
Quem escreveu isto foi Borges, em seu Evangelho Apócrifo, citado pelo Dr. Isaac Kelbert no discurso do jubileu de sua turma de Medicina da UFRGS. Só o discurso já tem 9 anos, imaginem a formatura.
 
Conheci o Dr. Kelbert em um boteco da Galeria Rosário, no centro de Porto Alegre. O boteco chamava-se “Madragoa”, era pouco mais que uma portinha estreita que dava para um corredor quase todo ocupado por um balcão. De um lado ficavam os atendentes, de outro os clientes. Dentro do balcão, as melhores empadas que já comi (e jamais comerei) em minha vida. Eram de siri, galinha ou de camarão. A crise do siri as reduziu apenas a galinha ou camarão. Outra crise diminuiu o tamanho das forminhas e das empadas. Mas nunca deixaram de ser excelentes.
 
Ali, ao final da década de 70 e durante os anos 80, às vezes, à tardinha, comecei a notar a presença de um senhor magro, de cabelos brancos, que tinha uma característica única. Quando falava, o bando de esfaimados que lá estava para comer empadas, ou de bebuns que empinavam seus conhaques, fazia silêncio e escutava. Ele era uma verdadeira metralhadora giratória, misturava assuntos sem costurar, mas não perdia jamais o objetivo final. Era muito divertido e consistente, com uma bagagem de erudição anárquica hoje em dia exterminada pelo método e pela disciplina. Aos poucos comecei também a escutar suas histórias e estórias. Grande tipo. Fazia as empadas ficarem ainda melhores. Um dia perguntei a um dos balconistas quem era ele. “Um médico”, respondeu. E completou: “Dr. Jacó, parece”.
 
Em 1983 um amigo me apresentou sua namorada, médica psiquiatra que também era modelo (ainda não se usava a expressão “top-model”) de Xico & César, na época a mais elegante grife de modas do Rio Grande do Sul. Ficamos amigos e um dia, com dores no peito causadas por uma gripe fortíssima, perguntei a ela se recomendava algum médico. “Meu pai”, respondeu. Me deu o nome Isaac Kelbert, e lá me fui. Enorme surpresa ao entrar no consultório e descobrir ali o senhor que contava belas histórias (e estórias). Ele não me reconheceu como um de seus ouvintes – afinal, eu nunca abrira a boca - e tivemos uma conversa estritamente médico/paciente. Como os remédios que prescreveu resolveram meu problema em poucos dias (e porque eu era moço, forte e não ficava doente com facilidade) nunca mais voltei lá.
 
O Madragoa fechou – ainda sinto saudades das empadas – e nunca mais o encontrei. Meu amigo casou com a namorada mas depois fez bobagem, a perdeu, e nunca mais a encontrei também. Então, ontem, navegando nas águas revoltas da WEB, não sei muito bem como fui atracar em um site feito por ela (a filha) sobre ele (o pai). E, nele, a transcrição do discurso que aquele senhor, Dr. Isaac Kelbert, fez no dia em que sua turma da Faculdade de Medicina comemorou os 50 anos de formatura, em 1999.
 
Pois não é que ele continuava o mesmo? Ali, na reitoria, frente a seus colegas de antigamente e a uma reitora provavelmente mais moça que ele, disparou a metralhadora giratória e fez um discurso atípico em termos acadêmicos, mas transbordante da erudição que a academia perdeu. Fui levado para o passado, aos tempos em que o escutava no velho Madragoa. Até o gostinho das empadas deu para sentir outra vez. O prazer de viajar por suas histórias, de “ouvir” (está certo, no caso de “imaginar”) sua voz outra vez, tudo foi um grande prazer e um grande barato. Dr. Isaac é o máximo, não cabe num blog, deveria escrever um, dois, muitos livros.
 
Se duvida, vá até seu blog e leia seu discurso de jubileu. Tenho certeza, vai valer a pena. O endereço é:
 
http://isaac-kelbert.blogspot.com/search/label/jubileu1999
 
sinto-me:
publicado por Ney Gastal às 19:37

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2 comentários:
De Lisa a 9 de Julho de 2008 às 01:48
Querido Ney!
Menino mau, hein? arrancou algumas lágrimas dos meus olhos secos... lembrei de tanta coisa relacionada ao Pai e a ti...
Obrigada! agradeço por ele, pela tua graça, por termos tido a oportunidade de cruzar no mundo!
Fui tua leitora fiel, muito antes de te conhecer pessoalmente... e sigo sendo, ainda q silenciosa,no mais das vezes...
um grande bj
Lisa
De Deise a 12 de Julho de 2008 às 22:29
Como nora do Dr. Isaac, fiquei emocionada ao ler o artigo sobre ele. Tenho um carinho muito especial pelo meu sogro, pois, como perdi meu pai muito cedo, acabei "adotando" ele como pai. O Dr. Isaac é ímpar. Por mais que falemos bem dele, sempre hão de faltar adjetivos. Meus parabéns e um grande abraço. Deise

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