Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

Alemão - Parte II

 

 

Por pouco tempo tudo voltou à antiga rotina. O que mudou as coisas foi uma dupla de vira-latas que, sabe-se lá como, cruzou pela vida do Alemão. Um macho e uma fêmea, cada um mais feio que o outro, mas “bons amigos de fé, irmãos, camaradas”. Vinham todo o dia, de manhã, e esperavam que a porta da garagem fosse aberta e ele saísse para a rua. Com eles foi que Alemão aprendeu uma das maiores especialidades do clã dos vira-latas: correr, latindo, atrás dos pneus dos carros. Passou a dedicar-se a isso com extremo afinco e grande habilidade. As pessoas da zona, que gostavam dele, não gostaram tanto dos novos amigos, “vira-latas demais, e feios” para a maioria. E tanto fizeram que um dia eles sumiram. Alemão deprimiu. Nunca mais correu atrás de carros, mas deu para sumir por dias. Muitas vezes sai a procurar por ele, seguindo indicações de pessoas que garantiam tê-lo visto nos mais variados locais.

 

Uma ou duas vezes (Redenção e IAPI) consegui achá-lo. Interessante. Bastava então fazer-lhe um cafuné depois dizer: - Pra casa, que ele voltava; para a frente da casa da Tanise, é claro. Outras vezes, achei apenas seu rastro. Por onde andasse, fazia amigos, então bastava chegar ao lugar certo e perguntar pelo cachorro legal que estaria andando por ali e logo surgia alguém com a descrição exata dele. Alguns desses lugares: na frente do Hospital Getúlio Vargas (na Avenida Independência), onde frequentou a banca de revistas; no cruzamento da Free-Way com a estrada que vai para Cachoeirinha (ganhou pouso num barracão de venda de abacaxi e lenha); em Alvorada (comeu cachorro quente na avenida central) e em Ipanema (parece que andou visitando o Bat-Bat, mas não bebia). No entanto, sempre voltava.

 

Em setembro de 2010 morou no Acampamento Farroupilha, no Parque Maurício Sirotsky. Comeu carne e sal como nunca deveria ter comido. Ficou doente outra vez. Foi tratado em casa, dessa vez, e antes de ficar completamente curado, sumiu. Sumiu. Fui reencontrá-lo no canteiro de obras que havia se instalado no mesmo parque. Devia estar esperando que os farroupilhas voltassem para se empanturrar de carne outra vez. Consegui falar com ele, mas quando o mandei pra casa, ele deu as costas e rumou para o outro lado. O rabo já não estava tão empinado.

 

Morou uns tempos na Vila Chocolatão, onde ganhou o nome de “Garanhão” porque estava sempre dando em cima das cadelas. Dizem que foi sempre bem tratado, mas não deve ter gostado das instalações, pois se mudou para um espaço da Escola Técnica Parobé, em frente. Lá enfrentou dois problemas. Viu a vila ser removida, e seus amigos e namoradas dali irem embora, e enfrentou a má vontade de duas ou três professoras, que achavam que colégio não é lugar para cães.

 

Foi ali, também (onde cheguei a visitá-lo algumas vezes, e de onde se recusava a sair) que foi descoberto por Bernardete, funcionária do Centro Administrativo do Estado, que passou a alimentá-lo e que, quando a situação com as professoras tornou-se insustentável, junto com uma amiga conseguiu convencê-lo a sair e o levou para a Pet e Clínica “Cantinho dos Travessos”, na Demétrio Ribeiro, que o abrigou, apesar de sua proprietária, Letícia, ter percebido desde o primeiro momento que ele estava em um estágio terminal de  insuficiência renal.

 

Na dura vida do Alemão, esse foi seu melhor momento. Até então, todos que haviam dele se aproximado, e mesmo ajudado, haviam dado muito, menos um abrigo seguro. Inclusive eu, todos tínhamos motivos para não levá-lo para casa, um outro cão, pouco espaço, pouca grana ou, no meu caso, cinco gatos. Na clínica de Letícia ele conviveu bem com outro cães, com gatos, teve seu sustento (alimentação especial e medicamentos) bancado por um crescente número de amigos e jamais reclamou do espaço. Ganhou um porto seguro, uma casa, e sentiu-se assim, em casa. Apenas seus rins jamais melhoraram.

 

Neste último sábado, dia 19 de agosto de 2012, depois de dois dias no soro, sem comer, cheio de feridas na boca, botando sangue para fora por tudo, Alemão foi posto para dormir, este eufemismo que a mim parece desprovido de todo sentido para a cruel realidade da verdadeira informação: foi sacrificado.

 

Ficamos – Ânia e eu – com ele quase até o fim. Claro, ele preferiu a companhia da Ânia, mulherengo como sempre, mas lá pelas tantas veio para o meu lado, deitou a cabeça no meu colo e conversamos um pouco. Não que eu tivesse o que lhe dizer. Eu queria poder sequestrá-lo e levá-lo para um lugar onde um milagre acontecesse, ele ficasse curado e a gente pudesse ficar junto. Uma última vez ele lambeu minha mão, a direita, é claro. Não a lavei até o dia seguinte.

 

Então ele foi levado e se foi.

 

Gostaria de ter ficado junto até o fim, mas Dona Celina, mãe de Letícia, que com ela o cuidou neste último ano e meio, o pegou e foi. Tenho certeza que ele morreu mais tranquilo nos braços de uma mulher. Saí da clínica à francesa.

 

Não tenho mais um amigo. Posso rodar pela cidade o quanto quiser, procurar por todos os cantos, nunca encontrarei Alemão por aí. Se pudesse, mandaria rezar uma missa por ele na Igreja das Dores, não que eu seja católico, mas porque seu velho pátio, hoje transformado em estacionamento, foi um dos lugares que Alemão frequentou. De repente, até pela nave da igreja ele andou. Mas não se reza por cães. E, apesar dos padres dizerem que eles, como todos os animais, não têm alma, a verdade é que eles não morrem, mas deixam sua memória (outro nome para “alma”) para sempre viva entre todos que conviveram com eles.

 

E agora, vou brincar com o Alemão.

 

Pessoas conhecidas (há tantas outras, que não conheço) que fizeram parte da vida e ajudaram o Alemão neste curto tempo que esteve entre nós: Tanise; Iara; Ânia; Maria Helena; Bernardete; Carlos (que o levava a passear nestes últimos tempos), Enara (aplicava-lhe reiki); Simone (fazia imãterapia); Dona Vera; Mariluce; Aita; Verena e, claro, por último, mas as que mais fizeram para tornar melhor e mais digna a vida do Alemão, Letícia e Dona Celina, da Pet-Clínica Recanto dos Travessos. Onde estiver, com ou sem alma, de lá ele agradece por tudo.





publicado por Ney Gastal às 19:44

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1 comentário:
De silvio sibemberg a 28 de Agosto de 2012 às 02:14
O Alemão tinha uma namorada também na Almirante Barroso, junto aos papeleiros (ops, recicladores), a altura do numero 200 O nome dela é Bolinha, também é uma vira-lata simpaticissima que adotou a todos na rua. Dorme invariavelmente na frente da sede da Gang onde tem muitos amigos humanos. Era, o Alemão, alem de tudo, um tipo garboso.

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