Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

Alemão - Parte I

 

 Se você tem alguma religião, e em consequência acredita em paraíso, vida eterna, essas coisas, diga lá: pode haver céu e eternidade felizes sem cães, gatos, cavalos e outros animais? Pode haver um paraíso sem nascer e pôr do sol, e, em os tendo, podem eles acontecer sem o canto dos pássaros? Pode um paraíso ser alegre apenas com o dedilhar de anjos em suas pequenas harpas? Mas que chatice! Então me responda: por que não se reza pelos cães? Por que não se admite que, se for para existir esta coisa chamada “alma”, forçoso é admitir que todo ser vivo terá direito a ela, das baleias ao musgo, passando, é claro, pelo cães. Mas não se reza pelos animais, não, pelo menos, na vida adulta. As crianças, tenho certeza, serão muito mais capazes de rezar por seus animais do que por muitos parentes que se vão.

 

Conheci o Alemão faz quatro anos. Na época ele era um cão forte, orgulhoso, poderoso. Viva em torno da esquina das ruas Duque de Caxias e Cipriano Ferreira, depois de ter passado uma temporada na Riachuelo. O motivo da mudança era evidente: se apaixonou por Tanise, e transferiu-se para a frente de sua casa. Da amada e de sua mãe, Maria Helena, ganhava água, comida e pouso: à noite, tinha acesso à garagem, onde dormia protegido das intempéries e da “maldade humana”. Só não podia frequentar o resto da casa porque essa era território de uma poodle ciumenta, que não admitia visita de estranhos.

 

 O tempo em que viveu ali (e onde foram batidas as duas fotos que acompanham este texto), Alemão manteve a paixão, mas nunca foi um exemplo de fidelidade. Era um rabo de saia convicto. Fugia de homens estranhos, mas saia atrás de qualquer mulher que lhe oferecesse a promessa de um sorriso. Foi assim com Ânia, a minha. Voltando da academia, um dia cruzou com Alemão, falou com ele e pronto: ficaram amigos. Chegando em casa, ela me contou do rival e, de pronto, fui conhecê-lo. Latiu para mim, me evitou, não me deixou chegar perto. Mas sou paciente.

 As próximas semanas foram dedicadas a um lento processo de aproximação. Ração seca? Não gostava. Biscoito para cães? Refugava. Ração úmida. Ah! Esta ele cheirava, sentava junto, e até comia, mas nunca de minha mão. Precisava deixá-la no canto do pratinho da Tanise, ir embora e supor, quando voltava depois de um tempo, que o sumiço dela significava que ele havia comido. Certeza nunca tive. Naquela época, saí pela zona tentando descobrir sua origem. Vira-latas de rua não era, não podia ser. Então surgiram várias histórias.

 

Algumas: seu dono era um velhinho que havia morrido. Pouco provável, dado à sua desconfiança dos homens. Então sua dona era uma velhinha que havia morrido. Mas também não era provável, pois era um cão muito acostumado a andar na rua, e nesse caso, seria conhecido. E ele havia aparecido de um dia para o outro na Riachuelo. Teria fugido de casa? O mesmo problema, fosse assim seria conhecido de alguém na região, e os cartazes distribuídos não deram resultado. Então, um menino que um dia assistia da esquina minhas peripécias para atrair Alemão com guloseimas caninas me disse:

 

- Conheço este cachorro.

 

 Ora viva!

 

Ele me contou então que, há algum tempo, um caminhonetão desses grandes havia parado na frente do Colégio das Dores, pouco antes do horário de saída, jogado fora o cachorro e ido embora. Disse que vários colegas haviam assistido à cena e que o cachorro havia corrido atrás do carro, mas depois voltado para a frente do colégio. Fui verificar e mais dois alunos, um deles mais velho, já do segundo grau me confirmaram o havido. Nenhum dos guardas ou motoristas de transporte escolar tinha visto coisa alguma. Mas na falta de provas de qualquer das versões, esta ficou sendo a minha preferida. É a mais parecida com o comportamento humano dominante.

 

Só consegui conquistar a plena amizade do Alemão lá por outubro de 2009. Foi num sábado quente. Cheguei em casa e fui ver se estava em seu local de sempre. Estava. Me aproximei conversando, ele veio me cumprimentar, mas não ficou perto. Fui para casa. Logo depois desabou um daqueles temporais de chacoalhar a cidade e lembrei dele, naquele temporal, pois a casa de Tanise havia me parecido vazia. Peguei um pacote de comida e fui para lá. Debaixo da maior chuva, sentei no cordão da calçada e o chamei. Ele veio. Ofereci um biscoto. Ele cheirou mas não comeu. Dei uma mordida e ofereci de novo. Ele mordeu. E ali ficamos até a chuva passar, comendo biscoitos para cães, para espanto dos motoristas que passavam. Ficamos amigos.

 

Convém esclarecer que eu não era o único. Àquela altura todo mundo na zona já conhecia o Alemão, e lhe dava coisas. Às mulheres, ele agradecia festivamente, aos homens, com circunspecção. Além de mim, outro homem de quem gostava era do pai da Tanise, ao qual seguia em suas caminhadas pelo centro até ser mandado de volta. Então voltava para casa, estivesse onde estivesse. Por esta época, descobriu-se que além das paixões fugazes tinha um outro amor estabelecido. Iara morava na General Alto. Ele também ficava na frente de sua casa, onde recebia água e comida. Ele também era apaixonado por ela. E, notável, durante muito tempo nenhuma das duas – Iara e Tanise – desconfiou da existência da outra, apesar das duas casas ficarem a menos de três quadras uma da outra. Mas Iara tinha em casa uma cachorrinha ciumenta, e ele não podia entrar. Mas a esta altura nem parecia querer. Adorava a liberdade e dava grandes passeios.

 

Então, no início de janeiro de 2010, logo depois do ano novo, Alemão ficou doente, muito doente. Ficou prostrado, não comia, orelhas e cauda caídas, nariz quente, o quadro da dor. A nós, leigos, parecia intoxicação, pois muita gente havia dado a ele restos da ceia de ano novo, e algumas dessas coisas haviam ficado ao sol por muito tempo. Tanise o deixou preso na garagem e chamou uma veterinária. Ela deu-lhe uma injeção, mas recomendou internação. E disse que, provavelmente, seria um problema renal. No dia seguinte, o pusemos no carro, carregado no colo de Tenise, para entrar, e o levamos para uma clínica. Ficou lá de 4 a 11 de janeiro, e o veterinário (do qual não cito o nome porque a clínica fechou ou se mudou e perdi contato) confirmou o diagnóstico de problema renal. E avisou:

 

- É crônico, não tem cura. Vão ocorrer outras crises e ele irá piorando. Teria que tomar medicação permanente e controlar a alimentação para estabilizar o quadro. Na rua isso é impossível. E mesmo em casa é difícil. Talvez ele já tenha tido uma crise dessas, e talvez por isso seu dono original o tenha posto fora.

 

O tempo todo em que ficou internado, visitei Alemão todos os dias, menos no domingo, último dia, pois neste visitas não eram permitidas. Brincamos, levei presentes, “conversamos”. Na segunda, quando fui buscá-lo tinha tomado banho e ele estava em uma geringonça de secar cães que mais parecia uma máquina do tempo. Lá dentro, após ter sido lavado e esfregado, e submetido a vento e barulho, estava... assustado? Nada. Imperial e imperturbável como sempre. Apenas me olhou e sussurrou com os olhos:

 

- Me tira daqui.

 

Naquele momento, tinha mais pompa e circunstância do que qualquer Akita com linha de ascendência registrada em uma biblioteca de pedigrees. E revelava, na expressão, toda a imensidão de seu bom caráter, que fazia com que nunca tivesse avançado, nem (muito menos) ameaçado ou mordido alguém, em seus tempos de rua.

 

Paguei a conta, ganhei uma guia e uma coleira usadas, mas muito bonitas para retirá-lo de lá (tinha ido no colo, lembram?) e o levei até o carro. E então, problemas: ele não gostava de andar de carro. Detestava. E eu tinha ido sozinho. Como colocá-lo para dentro, agora novamente forte e vigoroso? Puxa daqui, puxa dali, ele acabou por colocar as duas patas da frente e tirar a coleira para fora. Saiu correndo pela rua (Barão do Amazonas, quase esquina Bento Gonçalves) em direção à Ipiranga. Fui atrás. Consegui pegá-lo três quadras depois. O segurei pelo pescoço, uma mão de cada lado, e fiquei cara a cara com ele, jogado no chão. Impasse. Não tinha como recolocar a coleira, se soltasse uma das mãos ele fugiria. Pedi ajuda (esta na frente de uma garagem de ônibus, cheia de motoristas na frente). Todo mundo olhou o tamanho do cachorro e ninguém veio. E assim ficamos.

 

Devem ter sido segundos, me pareceram horas. Então ele me olhou nos olhos, virou o focinho para o lado e prendeu meu braço direito com os dentes, delicadamente. Não mordeu. Soltou e me olhou nos olhos (pertinho, uns 20 cm. de distância, literalmente olhos nos olhos). Repetiu o processo exatas quatro vezes. Nunca mordeu, nem sequer arranhou. Então deu um safanão mais forte, virou o focinho um pouco mais, pegou minha mão na parte carnuda e mordeu.

 

Mordeu com cuidado, se fosse com raiva, naquele lugar, teria arrancado um baita pedaço. Mas, apesar de mal ter furado, mão é mão, tive um baita sangramento. Soltei. Ele fugiu para a Ipiranga. Na esquina, parou e me olhou. Depois, foi embora. Voltei ao veterinário, que fez um primeiro curativo, e fui para o pronto socorro levar pontos, fazer a anti-tetânica e ser encaminhado ao posto de saúde para fazer a antirábica. Quando cheguei em casa, duas horas depois (no auge do pique de trânsito), ele já estava lá. Havia percorrido quase dez quilômetros do pior trânsito da cidade e estava lá. Quando me viu, veio, cabeça baixa, lamber minha mão enfaixada. Nunca mais lambeu a outra, sempre a que havia mordido. Viramos irmãos de sangue. Pelo menos do meu sangue.

 

 

publicado por Ney Gastal às 20:03

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1 comentário:
De MARIO FRANCISCO- a 28 de Agosto de 2012 às 23:46
São Francisco rogai por nós!

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