Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Radicalismo, modismos e a vaca louca

  

    Dia destes uma prima enviou-me a seguinte mensagem:  "A filha de um amigo meu é jornalista e gostaria de fazer um pós na área sócio ambiental ou de agronegócio. Tens alguma indicação de bom curso? Pode ser aqui ou no exterior". Estava cansado, irritado com os desmandos que eucalipteiam pelo Rio Grande (já não se pode mais dizem que "campeiam", porque o campo já mal há) então sentei frente ao teclado e dardejei um discurso irado contra estes modismos. Juntei a ele outro texto, de alguns anos atrás, e remeti tudo. Depois, mandei cópia desta resposta para dois ou três amigos, que responderam - quase todos - perguntando por que estava me tornando tão radical?
 
    Radical, eu?
 
    É, até pode ser, mas como não ser, quando o assunto é a defesa ambiental?
 
    Em tudo e por tudo, os agressores do meio ambiente são sempre radicais. Isto atualmente é especialmente claro aqui no Rio Grande do Sul, onde toda a cúpula ambiental do Estado não gosta da questão ambiental, parecendo considerá-la apenas mais um "entrave ao progresso". Mas em qualquer lugar o processo se repete. Se uma avenida for alargada em uma cidade qualquer e de um lado tiver árvores - um parque - e de outro construções, sobre qual deles se dará o alargamento?
 
    "É só um pedacinho" é o argumento recorrente dos agressores. É só um pedacinho do parque, é só um pouquinho do pampa, é só uma baiazinha do mar, é só um pouquinho da água do rio, e assim vai. A fábrica também, só polui um pouquinho do ar, tudo é só um pouquinho, e quando alguém reclama é logo taxado de radical. Seria assim como sobreviventes de um naufrágio  que, dia a dia, fossem cortando "só um pedacinho" do bote salva-vidas para fazer artesanato em madeira, e chamassem de alarmistas aqueles outros - talvez poucos - que alertavam dizendo que aquilo não iria dar certo. Ao final, todos morreriam afogados, e as tais peças de artesanato dariam à praia com bilhetes dos náufragos e seriam vendidas por verdadeiras fortunas.
 
    E daí? Vale a pena gerar riqueza às custas da destruição das possibilidades de preservação da vida? Me parece que não. Por isso, quando todo sistema, quando todas as doutrinas políticas vigentes priorizam a acumulação de riqueza, quer privada, quer pública, um pouco de radicalismo não vai tão mal assim quando a questão é defender a qualidade (ou até mesmo a possibilidade) de vida de nossos descendentes.
 
    Pois a não ser que você tenha garantido para seus filhos e netos uma passagem em um disco voador, para outro lugar bem habitável, é melhor começar a tratar melhor deste nosso cantinho, que por apertado e ameaçado que esteja, ainda é o único que nos resta.
 
    Leia aqui, então, os textos que orgulhosamente reconheço serem radicais. Vamos ser radicais enquanto é tempo.       
      
 
    Cuidado com os modismos
 
      Não existe área "sócio ambiental". Isso é uma picaretagem para justificar degradação ambiental. O ambiente, enquanto substrato sobre o qual todas as formas de vida se desenvolvem está pouco se lixando para as variáveis sociais, que são um rebotalho da cultura humana, desde sempre injusta.
 
    Exemplo: a Ilha de Páscoa tinha capacidade de sustentar uma determinada população, com suas necessidades fisiológicas e culturais (no caso, principalmente religiosas). Vamos dizer, dez mil pessoas. O ecossistema não ligava se os recursos iriam ser concentrados em mil pessoas e as outras iriam ter uma vida de merda ou se a sociedade era justa e igualitária (convenções sociais). Ele tinha uma "capacidade de carga" para 10 mil pessoas. Quando a população passou disso, o sistema entrou em colapso. Mais gente significava não apenas mais comida (que podia ser pescada), ou mais merda e lixo (que podiam ser jogados no mar), mas também mais templos, mais lugares sagrados e mais moais.
 
    Estes, apesar de serem feitos de pedra, precisavam de troncos de palmeiras para serem rolados e de madeira de árvores para servirem de andaimes. Mais gente, mais moais, mais madeira derrubada. Eles derrubaram tudo, entraram em crise e a sociedade se desfez. Bem feito.
 
    Aconteceram coisas parecidas na Grécia (se leres história ou mitologia antiga, vais ver que a Grécia era coberta de florestas) e em dezenas de outras civilizações. Em nenhuma delas a "questão social" pesou muito e o ambiente deteriorado por exaustão de uso (socialmente justa ou não) entrou em colapso, levando de roldão as sociedades e culturas que abrigavam.
 
    Hoje em dia, quando a sociedade dominante organizada (capitalista, comunista, petista ou peesedebista, com todas a variações possíveis e imagináveis, inclusive religiosas, sociais, psicossociais e outros "ais") resolveu se apropriar da questão ambiental para, através das certificações, valorizar seus produtos. Criaram-se mitos como "desenvolvimento sustentável", "área sócio ambiental" etc.
 
    Bullshit.
 
    O ambiente não negocia coisa alguma, a Terra é como uma Ilha de Páscoa, apenas maior. Agredir áreas naturais de importância (como, por exemplo, os banhados e florestas tropicais ainda existentes no mundo) será fatal para a sobrevivência do planeta, não importa os motivos (justos ou injustos) que se aleguem para tal ocupação. Para não falar na agressão ao mar, inimaginável até pouco tempo atrás.
 
    Botar uma usina nuclear no que resta de pampa, de floresta amazônica, de banhados ou na beira do mar é tão ruim quanto destruir estes locais para plantar espécies exóticas, criar assentamentos de miseráveis ou novos distritos industriais. Não importa se de imediato serão criados novos empregos, mais energia ou maior concentração de capital. O resultado será cobrado no futuro (um futuro cada vez mais imediato),através da redução da capacidade de carga do sistema planetário, resultando em extinção de espécies, falta de alimentos e - muito possivelmente - numa drástica redução (senão a própria extinção) da população humana.
 
    Um sistema fechado, como é nosso planeta, não admite discurseiras, justificativas ou negociação, nem tem senso ético, moral ou social sobre o que for sobrecarga de uso. Ele apenas colapsa. Então esta história de "área sócio ambiental", na medida em que sempre resulta em motivações sociais para a destruição ambiental, não passa de puro e cruel blefe.
 
    Outro blefe é o tal do "agronegócio". Como produção de alimentos pode virar um mero negócio? Como políticas de preço podem resultar em destruição proposital de estoques de comida ou em morte de animais de criação para a manutenção valores, e assim por diante? Chamar a produção de alimentos, esta coisa cada vez mais fria e distanciada da humanidade, de "agronegócio", é submeter o mais característico ato de todo ser vivo (o de se alimentar) às regras desta coisa chamada Mercado, que tem a cara e a postura de seu chará, o atualmente sumido Walter Mercado.
 
    Poderia indicar mil leituras à respeito. Isto faria da filha de teu amigo uma pessoa melhor, mais humana, mas certamente mais angustiada. Como a preocupação dela deve ser muito mais imediata - ganhar dinheiro - vou procurar alguns endereços de lugares que constroem essas grandes mentiras humanas e poderás mandar a ela, que talvez até fique rica seguindo estes modelos, mas que estará com eles ajudando a tornar pior, ou impossível, a vida de seus descendentes. A cada um, suas escolhas.
 
    Ney
 
    PS: Segue abaixo um antigo texto meu, que apesar de ser sobre a crise (na época) da vaca louca, tem e não tem algo a ver com tudo isso que escrevi, principalmente sobre o chamado agronegócio.   
 
Provocação: A vaca é louca?
   
     Nos Estados Unidos, milho transgênico se misturou ao outro, "tradicional", e agora vai tudo para alimentação de animais. Ou alguém acha que eles são malucos de comerem aquilo? Mas, se não são, para que plantavam milho transgênico? Ora, para exportar, é claro. Exportar para onde? Para os cucarachas, que qual baratas não se importam com o que comem, é claro. Bastou uma parte ínfima do que iam mandar para nós se misturar à comida deles, e pronto, não houve polêmica: governos, indústrias, produtores, todos foram unânimes: impróprio para consumo humano; por humano, é claro, se entendendo "eles", não "nós".

    Mas cuidado! Se a gente descuida, os "animais" que serão alimentados com este milho não serão os deles, nem os nossos, mas nós mesmos. Melhor ficar atento para um possível aumento na oferta de milho para exportação nos Estados Unidos. Vai pra lá, puxa pira ali, as porcarias acabam aqui.

    E a vaca? A louca é perigosa, contagiosa, mata aos rebanhos e aos humanos. Mas por que? De onde saiu a epidemia desta doença, rara e circunscrita até poucos anos atrás? Da moderna tecnologia. Vaca que come pasto não fica louca, como sabem todos. E vaca comer pasto é uma espécie de determinismo genético. Escrevi "é"? Perdão, na verdade, "era". A moderna tecnologia alimenta vacas com ração, e a ração é feita em grande parte com... carne! 

    Aquelas ovelhinhas que se vê pastando nos campos ingleses, não estão lá só para produzir lã, nem, muito menos, para alimentar pessoas. Estão lá para virar ração de vaca. É que vaca alimentada com ração engorda mais, e mais rapidamente. Só tem tem um problema: para gerar carne, ela também consome carne. Ou seja, disputa conosco a mesma alimentação.

    A idéia não é nova. Nas fábricas de galinha que andam por aí, as penosas, imobilizadas para não gastarem energia, são também alimentadas com ração animal. Ou seja, para produzir carne em 45 dias (aos 50 elas morrem, se não tiverem sido abatidas), as galinhas "modernas" comem ovelhas, misturadas com milho e soja.

    Quando você come uma galinha ou vaca destas, está também comendo ovelhas e vegetais próprios para consumo humano. O paradigma (palavra detestável, mas bem aos gosto dos tecnólogos) da moderna produção rural, está em acelerar a produtividade dos rebanhos alimentando-os com proteína animal e vegetal de alta qualidade, ou seja, com comida de gente.

    Para que você tenha seu filé, muita gente não pode comer ovelha. Para que você tente saborear estas galinhas sem graça, cor nem consistência, que são "fabricadas" nas linhas de montagem do que antigamente se chamavam "galinheiros", outras tantas pessoas não podem comer seu quinhão. Carne, grãos, proteínas, tudo vai prioritariamente para o gado. Gastam-se algumas toneladas de alimentação própria para o consumo humano, para gerar alguns quilos de alimento humano. Tem algo errado, é claro.

    Para não falar que a pobre vaca, um ruminante feito para ruminar capim e outras forragens que o homem não consegue digerir, foi transformada em um animal carnívoro, consumindo alimentos que seu sistema digestivo não tem condições de processar direito, e sendo vitimada por doenças contra as quais não tem defesa. Resultado: a pobre vaca ficou louca.

    As que não enlouqueceram, aftosearam. A febre aftosa é uma doença que não mata nem as vacas, quanto mais aos seres humanos. Quem já teve aftas na boca, sabe bem o que é. Um incômodo danado, uma dificuldade enorme em comer, mas um negócio que se cura. O problema das aftas das vacas, ou da febre aftosa, é que ela não é auto-imunizante. A vaca tem, passa para as outras, as outras passam de novo para ela, e assim por diante. Por ser altamente contagiosa, ela se espalha pelo rebanho todo, que para de comer e emagrece. É tratável e prevenível por vacina. Só que...

    Tem um "só que". A batalha para salvar os rebanhos da aftosa foi dura, e passou por campanhas maciças de vacinação. Quando uma área ficava livre, a carne vinda desta região passava a ser mais valorizada. Por que? Porque as carcaças das vacas, e muito das sobras de sua carne, também são usadas para fazer ração para alimentar outras vacas. Com isto, um rebanho contaminado pode contaminar outro, geograficamente distante. Evita-se isto como? Vacinando a todos os animais. Só que, vacinando, aceita-se, preliminarmente, que o rebanho "pode estar" contaminado, e o preço da carne cai. Então ninguém quer vacinar, e a epidemia se Espanha.

 

   Vaca louca? Que nada, mundo louco, este, onde as pessoas preferem queimar a vaca inteira (que já foi alimentada com carne de ovelha e vegetais próprios para consumo humano) a vaciná-la. Mundo pirado, onde tanta gente morre de fome, mas a vaca é queimada com todas as suas carnes, sem que estas sejam distribuídas entre os necessitados. Ou alguém acha que mandando carne para a África, por exemplo, carne desossada, iria sobrar algo para virar ração?

    Nos países pobres, vaca ainda pasta, e não fica louca nem costuma ter aftosa. Apenas morre de fome, porque as pessoas disputam com ela o pasto. Nos países ricos, é a vaca que disputa a alimentação humana. Em uns e outros, organismos inapropriados para a nova forma alimentar sofrem doenças, epidemias e morte, nas vacas ou nas pessoas.

    Vaca louca? Mundo louco!

 

    Moisés, que era Moisés, se insurgiu contra este modelo quando levou os judeus para fora do Egito, há milhares de anos. Proibiu sumariamente o consumo de carne de porco (os judeus tinham grandes varas deles) não por razões sanitárias, como conta o folclore, mas porque os porcos disputavam o mesmo alimento que as pessoas, e ele sabia que em sua peregrinação pelo deserto (onde vagou 40 anos para se livrar de uma geração de escravos e forjar outra de guerreiros) a comida seria escassa. Entre carregar porcos que dividiriam o alimento com os peregrinos antes de virarem, eles mesmos, alimento, ou proibir logo seu consumo, Moisés fez uma coisa que a maioria dos tecnocratas modernos não aprendeu a fazer: calculou o balanço energético do processo, e chegou à conclusão que seria melhor deixar os porcos no Egito.

 

    Era um sábio (ou tinha o melhor conselheiro), coisa rara no mundo de hoje, onde proliferam os tecnocratas loucos, responsáveis, entre outras coisas, pela loucura das pobres vacas.

 

publicado por Ney Gastal às 18:30

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