Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Cadê a galinha? - Parte II

 "Ximbica" é empresário de sucesso em Porto Alegre, nem velho nem moço, nem de direita nem de esquerda, nem agitador nem acomodado. Um livre pensador. Claro que seu nome não é este, mas como, na posição que tem, poderia assinar certas coisas? Então virou "Ximbica", sabe lá Deus por que deste pseudônimo, para escrever aqui. 

 

Quando não se consegue achar a culpabilidade escrachada – caso do ladrão de galinhas – a alternativa é seguir o exemplo americano. Lá, depois de investigarem minuciosamente durante o tempo que for necessário, constroem-se inquéritos recheados de provas incontestáveis antes de apresentarem a denuncia ao juiz. Ou seja, desenham meticulosamente a galinha de um jeito tal que não possa ser confundida sob hipótese nenhuma. Tem penas, asas, bico, pés e até cheiro de galinha. Configurado o crime, mandam prender sem chances de hábeas, a não ser por verdadeiras fortunas calculadas conforme o patrimônio do réu. 

 

No caso do Dantas, por exemplo, a fiança seria alguma coisa na ordem de um bilhão de reais. Afinal é nessa esfera que sua fortuna e negócios anda, ou não? Por esse método o presidente do STF americano não precisa esgrimir sabedoria jurídica para deixar de prender um réu com culpa ainda não definitivamente formada. Ao prender o ladrão a charada já esta esclarecida. Se dúvidas restarem, são de somenos. Aqui, ao que parece, querem mais é fazer espetáculos pirotécnicos mesmo. Proclamar declarações do tipo; “hoje, nesse país, nenhum figurão esta a salvo”, “acabou-se a impunidade independentemente de classes sociais” ou “quem não quer ser preso e algemado, que ande na linha”.
 
Ora bolas.
 
Sabemos que os presos estarão livres e soltos que nem passarinhos antes mesmo que se pisque duas vezes. É muita hipocrisia prender sem legislação adequada. Onde se quer chegar? Se for para apressar reformas na lei e fazer com que a vergonha bata a porta de mais alguns de nossos ilustres falcatruas, tudo bem. Os meios podem acabar justificando os fins. Mas antes temos que combinar isso com os políticos, para que façam as modificações necessárias. Essa coisa da Policia Federal poder tudo é um magnífico exemplo. Mas e quando virarem o fio? Quando começarem, por conta dessa credibilidade toda, a cometer mais excessos e desmandos? Quando se investirem como guardiões do bem e do mal, onde vão parar nossas instituições?
 
Não seria a primeira vez que a historia nos daria esse tipo de exemplo. Câmeras da Globo acompanhando flagrantes na madrugada não é exatamente um procedimento ético. Pode até ser jornalisticamente defensável, mas pelo lado da policia falta muito para se justificar. Fica algo tipo assim, puna-se na largada mostrando imagens das prisões e ridicularizando os criminosos porque depois não haverá mesmo pena a cumprir. Julgamento de rito sumaríssimo e mídia altíssima. Formula perfeita para um país de leis imperfeitas.
 
Volto ao tema inicial. Construam a culpa de forma tão meticulosa quanto os rigorosos ritos processuais americanos e não deixaremos espaço para que a desfaçam. Como resultado, chegaremos à galinha incontestável, daquelas que faz co-co-ri-có e põe ovo.
publicado por Ney Gastal às 17:53

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Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Cadê a galinha?

A indignação nacional com o prende e solta dos figurões do mundo financeiro envolvidos em mega operações de fraude ao erário publico e outros crimes como lavagem de dinheiro precisaria ser vista por um ângulo mais simplista.   Não sou advogado muito menos magistrado, sou apenas um cidadão consciente de meus deveres e obrigações e cumpridor da lei e da ordem, dentr o do possível.  Como tal não me é dado o direito de desconhecer a lei. Nem a mim nem a ninguém. Mas daí a entender a complexidade dos pressupostos delitos  cometidos  por essa turma do Daniel Dantas e companhia vai uma distancia e tanto. Se a própria Policia Federal levou quatro anos investigando, tendo nos seus quadros advogados e técnicos tributa ristas e contábeis especializados, como querem que a gente entenda esse tipo de crime da noite para o dia.           

 
A complexidade das operações financeiras desenvolvidas pelos possíveis meliantes é de tal ordem que escapa ao nosso saber. O emaranhado de legislação e regras que deveria ordenar nosso sistema financeiro é quase incompressível até para os especialistas. Ou seja, navegar por essas águas é somente para quem conhece e muito. As inteligências do Daniel e do Nahas são por muitos conhecidas e elogiadas. Trata-se de mentes brilhantes a serviço de suas próprias causas. Constituíram dezenas de empresas de sucesso e criaram entre elas e os setores públicos toda a sorte de relacionamentos comerciais. Operações de bolsa de valores sofisticadíssimas aqui e também lá fora. Fundos de administração de carteiras gerando bilhões de reais no cassino da bolsa, e mais um sem número de negócios de intermediação e representação, que também nos escapam quanto à complexidade e execução, fazendo nascer outras dezenas de zeros após a virgula.  Lucros fabulosos, legais ou não. Difícil, muito difícil a caracterização e tipificação os delitos.
 
Muitas brechas na lei e na falta dela, inclusive para caracterizar essas supostas artimanhas. Fica fácil a concessão do hábeas por parte dos ministros do STF. Alias, difícil é o convencimento dos crimes, e dos riscos do que podem os supostos envolvidos estando em liberdade representar. Quanto a possível evasão deles do país, é parte do jogo. Vide o Cacciola, de volta sob os generosos holofotes da mídia.
 
Quando um ladrão de galinhas é pego a coisa é bem mais simples. Tem o ladrão de um lado e a galinha do outro. A tipificação é flagrante. Ponto. Transponham isso para os “crimes” do Daniel Dantas e vejam se conseguem chegar perto de alguma coisa parecida.
 
Os sucessivos hábeas corpus obtidos e mais os que ainda virão decorrem exatamente dessa dificuldade. O inquérito policial já soma milhares de paginas que precisam ser analisadas pelo judiciário em suas várias instâncias. É obvio que haverá mais discordâncias sobre a culpabilidade em vários dos delitos apontados. A tecnicidade e apuro dos peritos serão postos a toda a prova durante esse julgamento. Ah, e a prescrição? Vem a galope, cinco aninhos para esse emaranhado é um vapt-vupt.
 
Aparentemente as coisas estão bem encaminhadas pela Policia Federal. Acho, inclusive, que os acusados de fato são culpados da maioria dos crimes que lhes são imputados.
 
Mas e a galinha, cadê?

 

(Ximbica)

 

publicado por Ney Gastal às 03:20

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Ortografia e atraso

      Esta reforma ortográfica que vai nos ser imposta ao final do ano atende principalmente aos interesses das editoras em língua portuguesa, visando aumentar o mercado livreiro. Assim como está hoje em dia, muitos livros precisam passar por um ridículo processo de tradução do Português para o "brasileiro", ou vice-versa, o que encarece a produção do livro. Ou seja, estamos sofrendo mais uma conseqüência da chamada "globalização". Isto não acontece apenas no Português, mas em quase todos os idiomas falados em antigos impérios coloniais onde a "matriz" não é forte o bastante para impor sua própria norma culta. Mas acontece com freqüência em nossa língua, porque a cultura portuguesa é cartorial e gosta que se enrosca de uma boa confusão.
 
    Só por isso não fazem a reforma definitiva de uma vez, e vão deixando penduricalhos para no futuro torrarem o saco de uma outra geração com novos "ajustes".
 
    Isto, no entanto, não significa que a língua não deva ter regras, que não exista uma língua "certa" e - por oposição - outra "errada".

 
    Muita gente cita o famigerado exemplo da "coisa" escrita pelos jovens na internet, como um modelo do Português do futuro. Não é.  Aquilo é incultura e preguiça. E, ao contrário do que defendem, NÃO É compreensível para todos. Além disso, ainda é uma língua de minoria. Há centenas de outros "projetos de língua do futuro" rolando por aí nos rincões do mundo de colonização portuguesa. Se a cada um for dada a liberdade de seguir para onde quiser, os países se despedaçam.
 
    A língua é a maior fonte de coesão de uma cultura, mas isto nem é o mais importante nesta questão. Mais importante é a necessidade das pessoas aprenderem a ESCREVER corretamente em seu idioma, mesmo resguardando o uso de dialetos e sotaques. Aprender a língua corretamente é um esforço preliminar e mínimo para "aprender a aprender" a pensar. Quem acha difícil aprender a própria língua - e nela escrever corretamente - terá muita dificuldade em aprender outras coisas. É como matemática de colégio. A fórmula de Báskara, por exemplo, sobre a qual gerações após gerações perguntam "pra que aprender isto?". Para aprender a raciocinar.
 
    Para aprender a pensar.  É admitido por especialistas em todo mundo que o altíssimo desenvolvimento dos países orientais, que, isolados, saíram da Idade Média faz pouco mais de cem anos e hoje estão tomando conta do mundo, se deve ao fato de suas crianças terem uma educação firmemente fundada em cinco bases complexas, nesta ordem:
 
    1-) Escrever usando ideogramas complexos, extremamente numerosos e de desenho elaborado.
    2-) Aprender matemática passando pelo uso do ábaco.
    3-) Aprender música e a tocar pelo menos um instrumento (na China comunista, hoje TODAS as escolas têm PELO MENOS um piano).
    4-) Exercícios físicos regulares e disciplinados.
    5-) Aprender a jogar xadrez.
 
    Ora bolas, no ocidente em geral, no terceiro mundo em particular e no Brasil de maneira muito especial, não se chega sequer a enfrentar o primeiro item - o aprendizado correto da língua pelo menos por quem freqüenta escolas - e ainda temos que ouvir pessoas educadas renegando a educação que tiveram em nome de um populismo hipócrita. O que vem piorando cada vez mais. É no que dá ter no cargo máximo da nação alguém que não sabe sequer falar português. Cria a necessidade dos teóricos justificarem o absurdo dizendo que isto não é importante, e dos conformistas tomarem esta justificativa como verdade. Não é.
 
    Um dia, há milhares de anos atrás, uma família de primatas optou por descer das árvores e mudar seu modo de vida. Formavam o que se poderia chamar de "elite" daquele grupo. Antes da roda, do fogo, de tudo, eles inventaram uma linguagem. Depois outra, depois outra e assim por diante. O polegar opositor e as línguas são a base de nossa civilização, para o bom ou para o ruim. E uma língua - um idioma - só existe enquanto uniformizada por regras, que podem ser boas ou bobas. Negar a necessidade de uniformização das regras de uma linguagem - qualquer uma - é negar todas as regras existentes, que não passam de linguagem codificada. Para ficar no mais simples dos exemplos, é negar as regras de trânsito, mão e contramão, por exemplo, e deixar todo mundo andar como quiser, na velocidade que quiser, do jeito que quiser. Para tudo em menos de uma hora.
 
    Negar a necessidade de escrever corretamente por preguiça é o primeiro passo para retroceder e, ao contrário daqueles macacos que há milhares de anos desceram das árvores, iniciar o caminho de volta para o topo delas, se árvores ainda existirem para isto, o que parece pouco provável. Pior: é negar o lento processo de construção do conhecimento humano. Pois se for "difícil" aprender a falar e escrever corretamente, mais difícil ainda será aprender a fazer contas. Mais complicado será pensar. Se for difícil pensar, a curiosidade irá se esvaindo. Para que saber? O que interessam as estrelas, tão longe estão? Para que serve conhecer a vida, se ela sabe viver sozinha? 
 
    E então, pedra por pedra, tal qual a Biblioteca de Alexandria (para que saber sobre ela, aquela velharia, perguntarão alguns), o conhecimento irá sendo destruído e seremos conduzidos a um destino não muito melhor do que o de sermos como bichinhos de estimação dos orientais e de outros povos que não reclamam das dificuldades enfrentadas para aprender a pensar, desde o primeiro e mais elementar estágio de aprendizagem, que é o de saber falar e ESCREVER direito na língua de nascença.
 
    Esta reforma é insuficiente, precária, preserva bobagens, cria outras, não simplifica a escrita do Português mas, para o bem ou para o mal, devemos obedecê-la porque será incorporada à gramática, que é a Constituição do idioma. Pelo jeito, a exemplo de nossa Constituição, a reforma é de um nível de confusão e bobagem inauditos. Mas enquanto forem - Constituição e Gramática - as que temos, nos cabe observar suas regras, mesmo nos textos que eventualmente possamos escrever para tentar modificá-las.
 
     É assim, uma coisa de cada vez e seguindo a ordem, senão dá confusão e ninguém mais se entende. Vide o exemplo da Torre de Babel.
publicado por Ney Gastal às 03:03

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Terça-feira, 8 de Julho de 2008

A força de quem não perde a juventude

 "Feliz o pobre sem amargura e o rico sem soberba."

 
Quem escreveu isto foi Borges, em seu Evangelho Apócrifo, citado pelo Dr. Isaac Kelbert no discurso do jubileu de sua turma de Medicina da UFRGS. Só o discurso já tem 9 anos, imaginem a formatura.
 
Conheci o Dr. Kelbert em um boteco da Galeria Rosário, no centro de Porto Alegre. O boteco chamava-se “Madragoa”, era pouco mais que uma portinha estreita que dava para um corredor quase todo ocupado por um balcão. De um lado ficavam os atendentes, de outro os clientes. Dentro do balcão, as melhores empadas que já comi (e jamais comerei) em minha vida. Eram de siri, galinha ou de camarão. A crise do siri as reduziu apenas a galinha ou camarão. Outra crise diminuiu o tamanho das forminhas e das empadas. Mas nunca deixaram de ser excelentes.
 
Ali, ao final da década de 70 e durante os anos 80, às vezes, à tardinha, comecei a notar a presença de um senhor magro, de cabelos brancos, que tinha uma característica única. Quando falava, o bando de esfaimados que lá estava para comer empadas, ou de bebuns que empinavam seus conhaques, fazia silêncio e escutava. Ele era uma verdadeira metralhadora giratória, misturava assuntos sem costurar, mas não perdia jamais o objetivo final. Era muito divertido e consistente, com uma bagagem de erudição anárquica hoje em dia exterminada pelo método e pela disciplina. Aos poucos comecei também a escutar suas histórias e estórias. Grande tipo. Fazia as empadas ficarem ainda melhores. Um dia perguntei a um dos balconistas quem era ele. “Um médico”, respondeu. E completou: “Dr. Jacó, parece”.
 
Em 1983 um amigo me apresentou sua namorada, médica psiquiatra que também era modelo (ainda não se usava a expressão “top-model”) de Xico & César, na época a mais elegante grife de modas do Rio Grande do Sul. Ficamos amigos e um dia, com dores no peito causadas por uma gripe fortíssima, perguntei a ela se recomendava algum médico. “Meu pai”, respondeu. Me deu o nome Isaac Kelbert, e lá me fui. Enorme surpresa ao entrar no consultório e descobrir ali o senhor que contava belas histórias (e estórias). Ele não me reconheceu como um de seus ouvintes – afinal, eu nunca abrira a boca - e tivemos uma conversa estritamente médico/paciente. Como os remédios que prescreveu resolveram meu problema em poucos dias (e porque eu era moço, forte e não ficava doente com facilidade) nunca mais voltei lá.
 
O Madragoa fechou – ainda sinto saudades das empadas – e nunca mais o encontrei. Meu amigo casou com a namorada mas depois fez bobagem, a perdeu, e nunca mais a encontrei também. Então, ontem, navegando nas águas revoltas da WEB, não sei muito bem como fui atracar em um site feito por ela (a filha) sobre ele (o pai). E, nele, a transcrição do discurso que aquele senhor, Dr. Isaac Kelbert, fez no dia em que sua turma da Faculdade de Medicina comemorou os 50 anos de formatura, em 1999.
 
Pois não é que ele continuava o mesmo? Ali, na reitoria, frente a seus colegas de antigamente e a uma reitora provavelmente mais moça que ele, disparou a metralhadora giratória e fez um discurso atípico em termos acadêmicos, mas transbordante da erudição que a academia perdeu. Fui levado para o passado, aos tempos em que o escutava no velho Madragoa. Até o gostinho das empadas deu para sentir outra vez. O prazer de viajar por suas histórias, de “ouvir” (está certo, no caso de “imaginar”) sua voz outra vez, tudo foi um grande prazer e um grande barato. Dr. Isaac é o máximo, não cabe num blog, deveria escrever um, dois, muitos livros.
 
Se duvida, vá até seu blog e leia seu discurso de jubileu. Tenho certeza, vai valer a pena. O endereço é:
 
http://isaac-kelbert.blogspot.com/search/label/jubileu1999
 
sinto-me:
publicado por Ney Gastal às 19:37

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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

A meleca nos atinge a todos

Levei um puxão de orelhas de um leitor(a) anônimo(a) em função do texto anterior. Ele(a) alega que, naquele texto, acabei fazendo justamente o que condenei no primeiro sobre o mesmo assunto.

 
Bingo. O leitor tem razão.
 
Não cabia, neste furrunço universitário debater sobre rejeição a qualquer dos candidatos nem, principalmente, sobre argumentos golpistas. Diz o leitor(a) – ao que parece ligado(a) à UFRGS: “A questão toda era se haveria cumprimento à lei e aos estatutos ou se um grupo de candidatos, mesmo que sejam todos eles, pode de comum acordo mudar as regras do jogo durante a partida”. Claro, óbvio, elementar. O que estava em jogo não era apenas o resultado da eleição, mas o exemplo da comunidade da universitária à sociedade sobre a observância – ou não – das leis.
 
Errei ao cair no jogo golpista de tentar discutir o comportamento de candidatos em relação ao acordo. O acordo era ilegal, nem merece ser debatido. Este é assunto a ser levado ao Conselho para que ele decida como serão as próximas eleições, dentro da lei e dos estatutos da universidade. Senão, é como no caso (um entre tantos) do golpe militar chileno, onde a milicada liderada por Pinochet resolveu que, como Allende não havia obtido a maioria absoluta dos votos (por lei, bastava maioria simples), ele devia ser derrubado.
 
Evitado o “pinochetaço” na UFRGS, abre-se agora um novo momento para debater como serão as regras eleitorais daqui para frente, evitando-se assim, via deliberação e decisão do Consun, a abertura de novas possibilidades golpistas.
 
Obrigado ao leitor(a) anônimo(a) que apontou minha própria incoerência.
publicado por Ney Gastal às 01:04

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Sábado, 5 de Julho de 2008

Terminou a temporada de baixaria acadêmica

Terminou a confusão sucessória na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; ou, ao menos, assim se espera. Em uma longa, tensa e tumultuada reunião, o Consun (Conselho Universitário), órgão máximo da Universidade, fez o que todos deveriam ter feito: cumpriu a lei, seguiu as regras e proclamou o resultado legal. Parece simples, mas não é. Em um país onde o exemplo do descumprimento às leis vem de todos os lados, a elite pensante universitária quase sucumbiu ao “jeitinho”, motivada pelos mais variados interesses, dos políticos aos de vaidade pessoal. No Conselho, afinal, prevaleceu o bom senso. Não deixa de ser um alívio perceber que ainda se pode confiar – senão em toda – pelo menos no colegiado superior da academia, para dar um exemplo de comportamento digno.

 
Houve outros, como o do presidente da Comissão de Consulta, no colo de quem desabou um abacaxi para ser descascado com uma gilete. Ele conseguiu, mantendo uma postura correta e digna, de observância às regras estabelecidas.
 
Pausa: se você não está entendendo muito bem o que houve, role dois ou três textos deste “blog” e leia “Baixaria acadêmica”, onde faço um resumo dos fatos. Vá lá, vou esperar.
 
...
 
Muito bem. O jogo de pressões continuou na reunião do Conselho Universitário, chegando ao ponto de determinado professor misturar idéias próprias com o parecer de um eminente jurista, sem deixar isto claro, tentando defender sua posição de maneira no mínimo pouco acadêmica. (Se a ciência produzida na Universidade usar destes artifícios estaremos todos muito mal). No auge das pressões, representantes dos alunos, dos funcionários e alguns professores resolveram deixar a reunião, na tentativa de impedir seu prosseguimento. Seguidores de Jânio Quadros, blefaram e se deram mal. O quórum se manteve, a votação foi realizada e o resultado foi acachapante. Dos 51 conselheiros que ficaram na sala (de um total de 73 que assinaram presença, no início), 47 votaram referendando o candidato escolhido segundo a lei, apenas 3 votaram na candidata que incentivou a confusão e um voto foi anulado. Isto significa que, mesmo se todos os 22 que se retiraram por diversos motivos tivessem ficado e votado nela, somando-se ainda o voto anulado, ainda assim o resultado teria sido o mesmo. Derrota.
 
E aí vale uma reflexão sobre poder e vaidade. A professora Wrana Panizzi já foi reitora da UFRGS por oito anos - dois mandatos - sendo que ao final do primeiro foi reconduzida ao cargo por aclamação. Não houve outros candidatos dispostos a disputar com ela. Foi uma reitora voltada para o mundo exterior. Comparecendo a todas – menos uma – formaturas, criou em um número enorme de pessoas (pais e familiares de formandos) a imagem de ser a personificação da Universidade. Extremamente cuidadosa, evitou assuntos espinhentos, como o da proporcionalidade de votos de professores, funcionários e alunos para a eleição do reitor. Tempo não lhe faltou para levar o assunto ao Consun. Não levou.
 
Também a questão das cotas raciais, que já pipocava, foi por ela habilmente evitada. Com esta habilidade de falar bem em público, conquistar simpatias externas, evitar envolver sua administração em debates polêmicos, montar assessorias através da contratação de pessoal externo via FAURGS e distribuir agrados cuidadosamente pulverizados, fez seu sucessor, saiu com grande popularidade (aparente) e provavelmente achou que continuaria uma espécie de eminência parda na nova administração. Isto não passa de especulação, é claro, e pode estar errado. Mas pelo que se viu, quando o atual reitor não a ouviu para montar a equipe nem para decidir como administrar a Universidade, é uma suposição válida.
 
Assim, Wrana teve quatro longos anos de ostracismo acadêmico para premeditar seu retorno. Altamente centralista e controladora, não deve ter gostado dos rumos que tomou a nova administração – não gostaria de qualquer administração em que não pudesse ingerir – e, quando foram abertas as inscrições de chapas para as eleições deste ano, fez uma reentrada teatral, quase no final do prazo, certa de que seria eleita. A vaidade é péssima conselheira e ela não percebeu que aqueles que a conheciam bem, os professores, seus pares, os que melhor podiam avaliar sua administração, não a queriam de volta.
 
Quando se deu conta disto, tentou mudar as regras. Quando esta tentativa fracassou nos resultados oficiais e até o público externo começou a se manifestar pelos jornais e conversas, lamentando o papelão a que ela estava conduzindo a UFRGS, resolveu tentar um golpe de mão no Consun. Quando, tardiamente, percebeu que nem isto daria certo, tentou um novo gesto teatral. Em plena reunião do Conselho, anunciou que retirava sua candidatura, o que também não seria um ato legal. Finalmente, derrotada em duas eleições e confinada às regras que não tentou mudar enquanto reitora, mas tentou golpear agora por interesse próprio, saiu de tudo derrotada.
 
Não está morta nem aposentada. É uma pessoa capaz, hábil, inteligente e política (no bom e no mau sentido), audaciosa e capaz de um dia abandonar uma excursão pelas ilhas gregas para descer e ficar uns tempos em uma delas, carregando apenas uma sacola. Foi, no cômputo geral, uma boa reitora. Teve seu tempo. Infelizmente, não soube dominar a sede de poder e colocou em sua biografia este triste episódio que sexta-feira se encerrou. Mas, como ela mesma lembrou em sua carta tentativa de renúncia apresentada ao Conselho, cada um escolhe como quer entrar para a História.
 
Mas, no Brasil, tudo é esquecido e mesmo quem fez muito pior continua por aí. Wrana ainda tem muito a contribuir para a Universidade (inclusive em sala de aula) e para a sociedade. Se conseguir livrar-se da ambição de ser reitora uma vez mais – duas vezes já não seriam suficientes? – ainda brilhará em bons cargos. Talvez tenha tirado deste episódio algumas lições que possam ensiná-la a ser menos temperamental e arrogante, o que certamente lhe tornará bem mais fácil a vida neste – como diria Sinatra – outono da existência.
 
Do vencedor do processo, professor Alex (por sinal ex-pró-reitor de Wrana; se ilude muito que pensa que a UFRGS, nos últimos 30 anos, alguma vez elegeu uma chapa efetivamente de “oposição”) se espera que tenha a coragem de pavimentar o caminho para que a próxima eleição – se for o caso – tenha as regras modificadas a tempo de evitar um novo vexame. Afinal, quem pode garantir que entre seus candidatos não estará, outra vez... não, não, melhor pensar que não.
sinto-me:
publicado por Ney Gastal às 19:05

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Casamento à antiga

Não sei onde foi publicado este texto. O recebi via internet, e, como acontece com lamentável freqüência, sem registro de origem. Suponho que deva ter sido publicado no Correio do Povo. Como, faz muito tempo, pedi e obtive autorização do autor para reproduzir seus textos em um site que então editava, vou me aproveitar dela para publicar aqui este que é, para mim, a melhor e mais sensível análise sobre a morte de Dona Ruth Cardoso. O texto é de Juremir Machado da Silva. Vejam só que beleza:

 

 

As imagens do desamparo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso junto ao caixão da esposa, Ruth, emocionaram o Brasil. Estava ali um homem realmente ferido pela perda. Fiquei arrepiado. O país inteiro arrepiou-se. Existem, neste mundo moderno, muitas formas de casamento. Uma delas sempre me chama a atenção: o casamento de cumplicidade. É a união de um casal de longo tempo por meio de muitas aventuras e desventuras, um cimento inquebrável. Fernando Henrique e Ruth estiveram casados por 56 anos. Construíram tudo juntos, da profissão ao êxito político dele. Experimentaram o exílio. Discutiram idéias. Intelectuais brilhantes, eles publicaram livros e viram o mundo. A política, de certo modo, foi o menos importante.


Na época em que eu estudava Antropologia, li textos de Ruth Cardoso. Havia qualidade, pertinência e sensibilidade em suas análises. Para nós, ela era e continuaria sendo a antropóloga Ruth Cardoso, um modelo de pesquisadora. Quando eu era estudante de História, li o que Fernando Henrique fez de melhor na vida, 'Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional'. É impossível esquecer esses escritos. Fiquei pensando numa frase de outro antropólogo, o mais famoso do século XX, Claude Lévi-Strauss, que completará 100 anos em novembro, 'o mundo começou sem o homem e terminará sem ele'. É sabido que todas as nossas glórias são vãs. A fragilidade de Fernando Henrique durante o velório da mulher com quem partilhou a vida era apenas uma manifestação concreta dessa obviedade. Imagino que a mesma cumplicidade una o atual presidente e sua esposa. O poder nada pode contra isso. Tudo passa. Menos o grande amor.


Ali, junto ao caixão, estava Fernando Henrique, não o FHC inventado pela máquina de moer políticos de uma esquerda que julgava se diferenciar dos outros por uma marca ontológica, essencial, metafísica, representar o bem contra o mal. Já foi. Tudo perece. Diferenças hoje, caso existam, são programáticas. Imagino que Ruth Cardoso tenha sofrido ao longo desse processo de diabolização. As fofocas garantem que Fernando Henrique nem sempre foi fiel. Não o desculpo. Nem o condeno. Constato que seu amor se mostrou até a última cena. Não pretendo construir agora uma idealização. Nunca sequer votei em Fernando Henrique. De certo modo, a sua trajetória política, especialmente como presidente da República, obscureceu um pouco o valor intelectual da sua mulher e também o seu, embora não tenha sido a catástrofe anunciada pelos seus adversários.


Demonizar e humilhar o outro é a característica principal do jogo político. A lógica partidária sobrepuja o interesse comum. O mesmo ocorre agora com um homem que já mostrou ser muito inteligente, mas que, por não ter uma educação formal elevada, enfrenta o desprezo de setores elitistas. Tenho certeza de que Ruth, assim como Marisa, deve ter segurado muitas ondas de um marido às voltas com as contradições da política e das próprias ambições. Não guardei na memória imagens da época de Fernando Henrique no poder. Essas imagens edificantes se repetem, todas marcadas pela estética positivista da autoridade. A imagem, contudo, de Fernando Henrique, destituído de qualquer poder, vacilando diante do inexorável, ficará por muito tempo em minha mente. Estava ali a potência humana: a aliança que nem a morte destrói. Ao final, volta-se ao começo.

 

publicado por Ney Gastal às 03:09

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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Como um soluço causado pelo vento

Sempre achei estranha a expressão "blog". Meio indecifrável. Na verdade, o som mais me parece onomatopéico (horrível, esta palavra)  para soluço. E soluço é um negócio que dá, passa e volta, quando menos se espera. Assim, depois de uma arrancada entusiasmada seguida de uma parada de quase três meses, este "blog" ressuscita por mais uns tempos, para em breve virar site. Por enquanto, vou por aqui. Vem comigo. Tem umas coisas divertidas e outras preocupantes para ler nestas páginas.

publicado por Ney Gastal às 23:35

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Baixaria acadêmica

 Da série "não saiu" - 2:

  

Tenho praticamente - faltam alguns meses - quarenta anos de jornalismo. Muito tempo para bancar o ingênuo. Ao longo deste período tive textos censurados (pela censura, mesmo), bloqueados, impedidos, reprimidos e que geraram ameaças. Todos somados não chegam a um décimo dos que apenas "não saíram". Os textos que "não saem" ficam em um limbo. Nunca há uma explicação convincente. Houve época até em que não saia porque poderia por o autor em risco e o editor optava por protegê-lo. Mas a maioria não sai porque pode ferir interesses da empresa ou de alguém importante para a empresa, ou do editor. Estes ainda são poucos frente ao motivo dominante para que um texto não seja publicado, justamente o mais prosaico de todos: pura, simples e corriqueira falta de espaço.

 

Só quem já foi editor sabe o verdadeiro inferno que é selecionar o que vai e o que não vai ganhar espaço. E por saber deste inferno, jamais questiono quando um texto que gostaria muito de ver publicado simplesmente não o é. Ao contrário da maioria dos autores nesta situação, por conhecer o inferno de ser editor jamais imagino teorias conspiratórias para tentar explicar por que determinado texto "sumiu" no limbo. Prefiro sempre acreditar que foi falta de espaço ou que ele não valia a pena para o espaço pretendido. Resolvi publicar alguns destes textos aqui, vez que outra, sempre sob esta introdução. Cada um que julgue se, de seu ponto de vista, ele deveria ou não ter conquistado o espaço que almejou.

 

Neste caso, trata-se de um texto sobre a confusão instaurada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul a partir de um conluio de todos os candidatos a reitor, para  burlar a legislação vigente, fazendo valer, para fins de apuração, não o que manda a Lei, mas um conchavo do qual todos participaram e o qual, muito provavelmente, nenhum estava disposto a cumprir, caso fosse o vencedor legal. O texto, de 26 de junho deste ano, fala por si. Ou, ao menos, tentou falar, pois "não saiu". Curiosidade: o assunto será decidido pelo Conselho Universitário amanhã, dia seguinte à publicação do texto neste blog. 

 

Como ex-aluno, ex-assessor de imprensa e estudioso dos processos sucessórios na UFRGS desde 1980, gostaria de colaborar para a melhor compreensão sobre o que está acontecendo: uma tentativa de golpe, da qual curiosamente TODOS os candidatos são cúmplices. É simples. Existe um conjunto de leis federais que rege o processo de escolha. Segundo estas leis, “em caso de consulta prévia à comunidade universitária (...) prevalecerão a votação uninominal e o peso de setenta por cento para a manifestação do pessoal docente em relação à das demais categorias”. Ou seja, o voto dos professores têm peso diferenciado e muito mais alto do que o de funcionários e alunos. Além disso, apenas professores podem concorrer ao cargo.
 
A vantagem proporcional do voto dos professores vem sendo contestada em várias instituições, em nome da pretensa (todas vivem de verbas públicas) “autonomia universitária”. Tais universidades, através de decisões de seus Conselhos Universitários, mudaram as regras de proporcionalidade, dando novos pesos aos votos de funcionários e alunos.
 
A UFRGS nunca fez isto. E às vésperas da eleição, os quatro candidatos, em vez de recorrerem ao Conselho pedindo a mudança das regras, optaram por assinar um “acordão” entre si, estabelecendo novos pesos. Claro, tratou-se de conchavo, de uma conspiração, algo que não tem valor frente à legislação vigente, nem pode encontrar respaldo por parte do Conselho Universitário. Além disso, é esperável considerar que nenhuma das chapas pretendia manter o acordado, caso fosse a vencedora pelas normas vigentes.
 
Isto, apenas, já seria motivo de confusão. Mas aconteceu pior. Em seu conchavo, os “conspirantes” lembraram de dizer a regra legal que pretendiam quebrar, mas não de estabelecer previamente uma outra regra que (em tese) pretendessem cumprir. Resultado: além de existir um vencedor “oficial”, segundo as regras vigentes, existem dúvidas sobre quem seria o vencedor segundo o resultado conchavado, porque esqueceram de estabelecer as normas de ponderação dos votos antecipadamente.
 
Um velho dito popular brasileiro diz que “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. A UFRGS parece ter resolvido provar sua veracidade, mostrando que a elite acadêmica, que dedica a vida a estudar, entre outras coisas, conspirações e matemática, não sabe conspirar nem fazer contas. Mas isto é um falso dilema. Todas as discussões sobre como ponderar os votos de cada grupo não têm razão de ser. A norma legal não foi mudada, nem em nível federal nem pelo CONSUN, de modo que o vencedor é quem venceu através de seus termos. O resto é conchavo, conspiração, despeito e desrespeito às leis.
 
Em um momento em que o Brasil se debate frente a tantos escândalos para saber se o que vale é a Lei ou os conchavos de interesses, é lamentável que a mais importante universidade daquele que é tido como o mais politizado dos estados dê tamanha demonstração de baixaria política. A hora de mudar as regras era antes, e o local o Congresso Nacional ou o Conselho Universitário. Nenhum dos candidatos fez isto. Conviria agora, pelo menos, aprenderem a aceitar a derrota com alguma dignidade.
 
Quanto ao novo reitor, tem a obrigação de fazer desta questão um de seus primeiros encaminhamentos ao CONSUN, para que a bagunça não se repita daqui a quatro anos.

 

  

publicado por Ney Gastal às 22:57

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Afinal, alguém traiu?

  Da série "não saiu" - 1:  

 

Tenho praticamente - faltam alguns meses - quarenta anos de jornalismo. Muito tempo para bancar o ingênuo. Ao longo deste período tive textos censurados (pela censura, mesmo), bloqueados, impedidos, reprimidos e que geraram ameaças. Todos somados não chegam a um décimo dos que apenas "não saíram". Os textos que "não saem" ficam em um limbo. Nunca há uma explicação convincente. Houve época até em que não saia porque poderia por o autor em risco e o editor optava por protegê-lo. Mas a maioria não sai porque pode ferir interesses da empresa ou de alguém importante para a empresa, ou do editor. Estes ainda são poucos frente ao motivo dominante para que um texto não seja publicado, justamente o mais prosaico de todos: pura, simples e corriqueira falta de espaço.

 

Só quem já foi editor sabe o verdadeiro inferno que é selecionar o que vai e o que não vai ganhar espaço. E por saber deste inferno, jamais questiono quando um texto que gostaria muito de ver publicado simplesmente não o é. Ao contrário da maioria dos autores nesta situação, por conhecer o inferno de ser editor jamais imagino teorias conspiratórias para tentar explicar por que determinado texto "sumiu" no limbo. Prefiro sempre acreditar que foi falta de espaço ou que ele não valia a pena para o espaço pretendido. Resolvi publicar alguns destes textos aqui, vez que outra, sempre sob esta introdução. Cada um que julgue se, de seu ponto de vista, ele deveria ou não ter conquistado o espaço que almejou.

 

Feijó traiu? Depende.
 
Foi ele quem pediu a reunião? Se não foi, isso reduz as possibilidades de ser chamado de traidor. Sabe-se lá quantas conversas já teve, quantos emissários recebeu para tratar do mesmo assunto: o que quer para deixar de bater no governo. Todos sabem: Feijó quer ser ouvido e quer derrubar o presidente do Banrisul. Habilmente, sempre reafirma a primeira e deixa nas sombras a segunda exigência. Inabilmente, a governadora jamais atendeu sequer a primeira.
 
Tivesse o chamado desde o início para participar, Yeda teria colocado Feijó em um brete: ou aceitaria o fato de que não se ganha todas, ou teria que assumir que tem um problema pessoal com o presidente do Banrisul. Mas a governadora, todos o dizem, não é de escutar ninguém e gosta de provocar cizânia entre os auxiliares. Ela acredita na técnica do “dividir para governar”, uma bobagem para quem já carrega na própria função o título de “governadora”.
 
Sendo assim, a culpa é de Yeda. Ela instaurou o medo e a insegurança no governo. Feijó foi apenas o primeiro a abrir o jogo. Se algum erro cometeu, é que antes de divulgar a fita deveria ter feito a denúncia dos fatos. Caso Busatto negasse, só então deveria ter mostrado as gravações.
 
Busatto, por outro lado, sempre foi respeitado pela clareza de posições. Durante os anos do governo Britto eu costumava chamá-lo, para amigos comuns, de “o mais petista dos peemedebistas”, tal seu fervor no embate. Jamais foi tolerante no verbo, nunca foi “misericordioso” na ação. Como pode agora pedir misericórdia àqueles a quem trucidou? Faria melhor se reconhecesse a incoerência entre o que disse a Feijó e o que defendia antes. Ficaria na companhia de tantos outros que, nos últimos anos, traíram tudo o que haviam dito e escrito, até peremptoriamente. Continuam todos eles por aí.
 
De tudo, fica o crescimento da popularidade do vice, que também se reflete no aumento das críticas feitas a ele. Já não é impossível imaginar nas eleições de 2010 um embate ideológico finalmente claro para o eleitorado gaúcho: de um lado o deputado Pont, pela esquerda, e de outro Feijó, congregando a direita. Uma esquerda menos furiosa e uma direita menos raivosa do que estas que andam por aí, fruto de “composições plurais”. Sem dúvida uma esquerda e uma direita capitaneadas por pessoas que até agora não foram chamuscadas pelo exercício da política.
 
Pode ser pouco, mas a esta altura é lucro. 
 
 

Uma curiosidade sobre este texto, escrito e encaminhado em 10 de junho passado. Originalmente seu título era outro e ele começava assim: "Nem física, nem em temperamento, pode-se dizer que Busato tenha algo de Bentinho, nem Feijó de Capitú". E seguia, fazendo uma análise sobre "traição", passando por Capitú, Calabar, Judas e outros "traidores" famosos a quem o tempo e a razão deram o benefício da dúvida: traíram? O que, afinal, merece ser chamado de traição. Ficou um texto enorme. Como o espaço oferecido era pequeno, fui cortanto, cortando, cortando até restar isto aí em cima, que afinal não foi publicado. E, pior, não salvei a versão original, perdida para sempre no espaço virtual.

 

Ah! Talvez seja tarde para avisar, mas este texto só poderá ser bem entendido por quem vive o Rio Grande do Sul, no estado ou fora dele. É um assunto muito regional, que envolve uma gravação feita pelo vice-governador de uma conversa com o chefe da Casa Civil que resultou no maior bochincho.

publicado por Ney Gastal às 22:12

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